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Stephen Crane ou os falsos livros simples

“A mãe de George”, de Stephen Crane, é a emoção de assistir à explosão demográfica e às dores de crescimento de uma cidade como Nova Iorque, por um filtro muito privilegiado: através da óptica dos seus “bas-fonds”. É também a novela humana elementar, inserida em história urbana: é a necessidade de aceitação, de pertença, de reconhecimento, que grita e morde por entre os prédios cor de tijolo da Bowery.

O estilo é muitas vezes irónico, mas o quadro é genuíno, honesto e muito humano. E depois chega-nos a magia da grande ilusão, só ao alcance dos grandes artífices da escrita: sem nunca serem chamadas pelo nome, ou ordinariamente invocadas, as emoções humanas tornam-se palpáveis, vivas, tridimensionais, a gritar na cor garrida de uma chaleira, na sílaba do murmúrio de uma mãe angustiada, no chiar do caixilho perro de uma janela, no vinco de um casaco não pendurado no cabide. Esta pequena mas maravilhosa narrativa está tão bem construída que perpassa uma falsa imagem de simplicidade.

O protagonista só quer ser parte da corrente sanguínea de uma cidade que de tão grande o assusta, o fascina, o atrai. E há também a vida que só perpassa das grandes obras: os gangs, os saloons, os edifícios, a iluminação das ruas, os artefactos, toda a magia que mantém o retrato vivo, a grande magia, da grande literatura.

E a grande literatura é assim. Disfarça-se de pequeno livro, de pequena semente, aparentemente esquecida no solo imenso e indiferente, ilusoriamente frágil perante os elementos. Depois cresce, imparável, como um mar revolto dentro de nós, pobres coitados que a subestimámos. E as suas raízes intrusivas abrem brechas, inundam tudo de vida, e cor. Rasgam. Rebentam. Muito para além das paredes e das fronteiras com que julgávamos poder confiná-las.

 

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