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Raquel Afonso é a nova autora da Lua Eléctrica e fala-nos do seu livro

Raquel Afonso * é a nova Autora da Lua Eléctrica. Num texto exclusivo para o nosso site, apresenta-nos o livro “Homossexualidade e Resistência no Estado Novo“, em breve disponível.

“A partir da segunda metade do século XX, o movimento feminista e o movimento de liberação sexual lideraram o processo de politização das sexualidades, denunciando a marginalização e repressão a que as minorias sexuais estiveram sujeitas. Em Portugal, o estudo acerca da não-heterossexualidade tem um início mais vincado a partir da década de 90 do século XX, muito por influência do nascimento do movimento LGBT, ao contrário de outros países, nomeadamente os Estados Unidos, que têm como marco de início de movimento os riots de Stonewall, em 1969.

Durante o século XX, vários países estiveram sob alçada de ditaduras fascistas, nas quais a homossexualidade era condenada, a nível legislativo, médico, religioso ou a nível social. Em anos recentes, na tentativa de compreender estas realidades, começam a surgir várias investigações centradas na memória das vítimas homossexuais destes regimes antidemocráticos, como são os casos de Espanha ou Alemanha, por exemplo.

Em Portugal, apesar de já se ter iniciado o estudo acerca da homossexualidade (sobretudo masculina, diga-se), na ditadura salazarista, pouco se sabe sobre a vida de lésbicas e gays, a forma como viveram este período, a maneira como resistiram aos vários tipos de opressão e as suas repercussões no presente. Esta investigação, do qual resulta este livro a publicar pela Lua Eléctrica, é sobre isso mesmo. Nasce de uma tentativa de dar voz às pessoas comuns e pretende refletir acerca da homossexualidade e lesbianismo durante o período do Estado Novo, pois estas “identidades” eram observadas enquanto crime e doença, como um desvio da normatividade.

Capa da Revista “Mundo Gráfico”, 1940. Fonte: Hemeroteca de Lisboa

Nesta investigação, aborda-se a visão da homossexualidade durante o salazarismo, através dos parâmetros estatais, a partir de três eixos centrais e que fazem o fundo científico do Estado Novo: a diferença de tratamento devido à classe social; o eixo do não-dito, e a visão da sexualidade a partir da referência do masculino. Desenvolve-se ainda a vida quotidiana de gays e lésbicas que viveram clandestinamente a sua sexualidade, observando-se a opressão social a que estavam sujeitos a partir das suas redes de sociabilização mais próximas, como a família ou os amigos.

Compreendendo que a homossexualidade era reprimida, haveria também formas de resistir, de manter estas práticas, veladamente. Por isso, analisa-se igualmente as formas de resistência quotidiana, que passavam pela dissimulação ou ocultação da homossexualidade mas, também, pela prática clandestina da mesma, em locais que eram identificados pelos homossexuais como lugares de encontro ou de prática sexual. Finalmente, aborda-se o final da ditadura e o início da democracia, que permite compreender que, apesar do 25 de Abril de 1974 ser um marco muito importante para o país, não foi aí que a liberdade chegou para as pessoas LGBT, apesar de terem existido várias tentativas nesse sentido.

Este é um estudo que pretende ligar a investigação académica à sociedade e aos movimentos cívicos. Este é um livro de memórias. Procurou-se dar voz a quem não conseguia expressar-se. Procurou-se compreender uma parte da Ditadura que tem sido muitas vezes relegada para a sombra. Aqui, procurou-se desconstruir um tempo pretérito, do qual pouco se sabe e pouco se fala em Portugal. Não porque se queira ficar «agarrado» à história, porque há futuro, mas porque é necessário conhecer o que está para trás para se poder caminhar para a frente.

Capa da Revista “Triunfo”, 1974. Fonte: Hemeroteca de Lisboa

*Raquel Afonso nasceu em Julho de 1994, em Sintra. Licenciou-se em Antropologia, pela NOVA-FCSH em 2016. Em 2018 concluiu o mestrado em Antropologia – Temas Contemporâneos, pela mesma faculdade. Investigadora integrada do IHC-NOVA, é doutoranda em Estudos de Género (ISCSP/NOVA-FCSH/NOVA-FD), estando a fazer investigação acerca da homossexualidade, lesbianismo e formas de resistência nas ditaduras ibéricas do século XX, através de uma perspetiva comparada. As suas áreas de investigação centram-se atualmente nos Estudos LGBTI, Memória e Resistência.

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