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Podem os livros de auto-ajuda realmente ajudar-nos?

 O conceito de auto-ajuda não é propriamente novo, e se quisermos incluir nele um conjunto alargado de produtos e soluções, que podem incluir não só os livros, mas também vídeos motivacionais, o personal training, a formação ministrada a empresas e particulares, podcasts, MP3, pode ser considerada uma indústria que segundo John La Rosa, da Market Research, movimenta anualmente cerca de 10 Biliões de dólares, montante que deverá ascender para os 13 Biliões de dólares em 2022, só nos Estados Unidos da América. Segundo La Rosa, esta indústria não é estável, e começa por ser sazonal, tal como as nossas inseguranças e resoluções.

 No meio desta miríade de produtos e serviços, a indústria propõe-se dar resposta a situações tão diversas como lidar com a perda, perder peso, aumentar a concentração, a produtividade, gerir o stress, a raiva, gerir o tempo, melhorar a alimentação, reorientar o fengshui da casa… Mas até para uma indústria bilionária são necessários ajustes e a preocupação começa a ser a de dar resposta a uma nova geração, a dos millenials, e já não a dos baby boomers. Para o fazer tem de encarar a importância crescente da internet e reorientar o seu aconselhamento para uma vertente cada vez mais personalizada e sob níveis cada vez maiores de exigência e escrutínio.

Para Kara Cutruzzula, que escreveu um artigo sobre o tema para a TIME, este mercado conheceu uma complexa evolução, até ao ponto em que começou a especializar-se, a procurar nichos específicos. Esta evolução terá tido um primeiro passo com as obras “Self Help”, de Samuel Smile, escrita ainda no século XIX, e “Laugh and Live”, de Douglas Fairbanks, escrita em 1917. Esta última continha uma mensagem simples: sorrir. Mas a vida moderna tornou-se complexa, e os livros de auto-ajuda também. Eram primeiro fixados num perfil específico: homem, branco, trabalhador essencialmente em ambiente de escritórios e serviços. Passou a falar por género, por raça, por idade, por profissão, por natureza dos problemas.

 Tende a conhecer uma explosão quando ocorre uma crise económica. Foi assim com a Grande Depressão, e com o sucesso do livro de Dale Carnegie, “Como fazer amigos e influenciar pessoas”, foi assim agora, após a crise da Grande Recessão ou crise do subprime. Como novas tendências, para além de responderem a uma geração diferente, e através de meios diferentes, podemos identificar, por exemplo, que este tipo de livros responde à evidência de um espírito comunitário que está a ressurgir, a fugir do tradicional individualismo, que pode estar na origem de um certo sentimento de solidão, isolamento, e um vazio contemporâneo.

 Já Robert Ince, da BBC, estabelece os primórdios da auto-ajuda nos escritos dos primeiros filósofos da antiguidade clássica, e depois nas sagradas escrituras e na herança de ambas na tradição eclesiástica, por toda a Idade Média. Na época da revolução industrial, já no século XIX, o livro “Auto-ajuda” bateu, em vendas, “A Origem das espécies”, de Darwin. Porque a indústria da auto-ajuda sabe ler o seu próprio tempo: “adequou-se muito bem ao percurso de industrialização no mundo, para lá da Grã-Bretanha, e particularmente nos Estados Unidos, onde a mobilidade social e o conceito de oportunidade se moveram em sintonia com um sentido protestante de auto-confiança”, observa Ince.

 O próprio conceito de auto-ajuda, porventura gasto e com uma conotação demasiado negativa, vai sendo substituído pela noção de auto-melhoramento ou auto-desenvolvimento, o que na cultura anglo-saxónica tem a designação de self-improvement.

 A indústria percebeu que o conceito de ajuda implica uma falha, uma fraqueza, e que a realização de promessas, ainda que vagas, pode redundar em desilusão e na percepção da indústria como uma espécie de falso messias ou de vendedor de banha da cobra.

 A indústria procura hoje agir no espaço de um vazio e de uma orfandade espiritual, a que uma civilização orientada para o consumo e para o bem-estar material, ainda por cima falível neste último ponto, não conseguiu dar resposta.

 A mensagem principal é a de uma reconexão com um sentido de paz e um contacto interior, um espaço que parece perdido, quando as redes sociais, a digitalização e automatização de processos parecem tornar invisíveis as fronteiras do que somos em termos profissionais e pessoais.

  Quando tentamos construir de forma contínua uma auto-projecção artificial, ocorre um divórcio crescente com o que somos realmente, uma desorientação de personalidade, uma angústia que decorre de uma certa traição espiritual a nós próprios: a indústria de auto-ajuda tem sabido movimentar-se neste vazio, identificando-o e tentando resolvê-lo.

 Para Helen Booth, da Stylist, a grande novidade da auto-ajuda tem sido o aumento do substracto científico que lhe serve de base. A ciência legitima e alimenta o conteúdo e o rigor deste tipo de matérias, aproveitando o desenvolvimento do conhecimento científico em áreas como a psicologia, a nutrição, o sono, a performance física ou mesmo noutras áreas como a economia, finanças pessoais, marketing.

As opiniões sobre a legitimidade e a efectividade ou grau de consequência prática deste tipo de livros, ou da própria indústria da auto-ajuda, tida como um todo, dividem-se.

 Para Morty Lefkoe, daHuffpost, este tipo de ajuda é efémero. Muitas vezes o que nos separa da felicidade ou do sucesso num campo específico da vida são barreiras internas, próprias de cada um de nós, e demasiado enraizadas. Um livro de auto-ajuda, defende Lefkoe, só funciona se estivermos verdadeiramente prontos para uma mudança interior, mais profunda e estrutural, no nosso próprio sistema de crenças. A mesma ideia começa também por ser reforçada por Cristofer Jeschke, da Medium: “se queremos realmente obter resultados, para alcançar sucesso ou evoluir em qualquer área da vida, do que precisamos realmente é de agir”.

 Estes livros começam por oferecer algo positivo: uma promessa, uma possibilidade. Muitas pessoas iludem-se perante essa oferta inicial, ou seja, a descrição de uma mudança, de um cenário alternativo, que não chegam a concretizar, porque fazer isso, mudar efectivamente, envolve uma grande dose de sacrifício e de dor. Não significa isto que os livros não sejam poderosos instrumentos, como nota o autor do artigo: “Ter a oportunidade de aprender com os sucessos e os erros dos outros é sempre uma enorme mais-valia”. Jeschke deixa também a ideia de que a maior parte dos ensinamentos que são veiculados por este tipo de livros já estão na posse de cada um de nós, de forma mais ou menos consciente, de forma mais ou menos aceite.

 Já para Ben Marshall, num artigo escrito para o The Guardian, muitos destes livros são repetitivos na fórmula de compensação pela virtude e culpabilização pelos defeitos e mostram uma formulação algo primária e moralizadora, até condescendente. Para além disso, continuam a ser o produto de uma era económica e ideológica que talvez comece a ficar datada. As soluções para os nossos problemas passam muitas vezes por resoluções mais fortes e também mais simples, como o de procurar apoio na amizade.

 Mas nem todas as opiniões sobre este tipo de livros são negativas, naturalmente. Para EleanorHalls, da GQ – Edição Britânica, um livro de auto-ajuda pode realmente ser eficaz, mas deve ser alvo de uma escolha criteriosa por parte de cada leitor. Halls aponta três características para que um livro de auto-ajuda seja realmente eficiente e válido: não veicularem fórmulas miraculosas; conseguirem realmente mostrar-nos pontos de vista novos para os quais não estávamos ainda alertados; terem um trabalho sólido de investigação científica a sustentar as suas teorias. Este seu artigo para a GQ vem sob a forma de uma lista de   livros recomendados, e das razões pelas quais os mesmos valem realmente a pena. As vantagens dos livros escolhidos vão-se normalmente repetindo: rigor científico; o livro é fruto de uma pesquisa exaustiva; tem como base o trabalho efectuado em instituições académicas de prestígio.

 Para Jake Tobin Garrett, da Electric Literature, é mais provável que procuremos um livro de auto-ajuda quando algo não nos corre bem, ou quando passamos por um momento difícil. Se esse livro nos presta essa ajuda num momento negativo, já é isso mesmo, uma ajuda. Muitas vezes o apelo destes livros não é propriamente o de esperar que os mesmos mudem a nossa vida, mas sim a projecção que fazemos de nós próprios, ou seja, a sugestão que eles nos oferecem do que poderíamos ser. A possibilidade de nos imaginarmos melhores. É essa a possibilidade que nos é mostrada. E há algo de compulsivamente positivo nisso, mesmo que não passe do simples acto de leitura.

 Fomos também espreitar as opiniões de vários leitores em torno de um ranking estabelecido pela plataforma GOODREADS sobre os livros de auto-ajuda mais populares do mundo: gostam do carácter prático de um livro, mais do que a teoria em si; apreciam livros que sejam efectivamente inspiradores; um livro deste tipo deve ter um sentido de compaixão, de humanidade; são também apreciados os livros que importem a sabedoria de outras civilizações, de outras perspectivas, porque esse exotismo parece sugerir um espectro de novas possibilidades.

 Em geral, e porque é a opinião de cada leitor que realmente interessa, o importante é encontrar nestes livros a sensação de que falam directamente a quem somos, às soluções de que precisamos, individualmente. É sentirmos que veiculam instintos e emoções positivas.

 A verdade, como sempre, talvez resida numa solução de compromisso. Pode ser profundamente contraproducente apostar num livro de auto-ajuda como garantia integral de mudança, resolução, catarse ou felicidade, dependendo do que cada um de nós procure. Outro dado adquirido é que o desespero também não deve ser o nível de partida, ou o estado de espírito com o qual procuramos o livro certo para nos ajudar.

 Antes de procurar esse tipo de ajuda, haverá um percurso inicial a trilhar, em termos de trabalho interior, e esse diálogo que temos com a nossa própria consciência deve estar sempre presente. Mais do que isso, devemos criar o espaço para que crie efeitos práticos, por via do sacrifício, do esforço. Mas, em última análise, se realmente precisamos de ler as palavras certas, nos momentos em que mais precisamos delas, uma ajuda é uma ajuda. E isso só pode ser positivo.

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