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Philip Roth. Os livros como espelhos do nosso medo

Philip Roth, nome maior da literatura americana falecido no passado mês de Maio, será sempre muito mais do que a própria classificação redutora com que abrimos este texto. Porque a escala da sua visão é do tamanho da nossa civilização. Deixou-nos escrito o nosso diário íntimo, secreto, colectivo. A crónica escondida da nossa família.

Ao acompanhar as grandes convulsões culturais e sociais do século XX e do início do século XXI nos Estados Unidos, deixou-nos um álbum de retratos. E todos os retratos que nos deixa são tão brutais como honestos, e tão nítidos, que a primeira questão que se coloca a nós leitores é a de saber se temos coragem de parar para ver os nossos rostos ao detalhe, os nossos traços carregados, castigados pelas nossas lágrimas. Podemos muito bem ver nele não só o escritor enorme, mas também o fotógrafo, ou o escultor. Os parágrafos que nos deixou são também feitos de mármore, e as nossa rugas por ele cinzeladas na pedra, a imortalizar o peso dos nossos sonhos e das nossas ilusões, de cada vez que foram vencidas.

Focamos aqui a obra “A conspiração contra a América”, pela incredulidade que nos causa a ideia de saber que o nosso tempo, o nosso medo, o drama das nossas vidas em finais de 2018, já estava escrito. Pintado como um retrato de Dorian Gray que só a nossa cobardia, a nossa vaidade, nos incitava a não olhar de frente. A ignorar e a escondê-lo no sótão. E é absurdo que um livro escrito em 2004 como uma distopia não futurista, mas sim colocada numa janela temporal da história, do passado, seja um retrato mais fiel da tragédia das nossas vidas presentes do que as imagens que vamos alojando nos servidores do Facebook e do Instagram, em que só se poderá entrever o nosso abismo nas entrelinhas do vazio e da vaidade artificial em que nos escolhemos esconder.

Roth escolheu construir uma fantasia histórica grotesca, um cenário ficcional distópico não situado no futuro, tal como estamos habituados, mas sim na janela temporal muito específica do nascimento dos regimes fascistas, que coincidiu nos Estados Unidos da América com a ressaca da Grande Depressão. E aqui começa a desenhar-se um jogo de espelhos que, pela solidez da sua arquitectura, turva desde logo os limites entre ficção e realidade, entre o domínio factual e o hipotético.

As mesmas condições económicas que abriram caminho ao fascismo na Europa, ou seja, a factura de desemprego, dívida pública e inflação resultante da Primeira Guerra Mundial, bem como o rancor social latente que não ficou saldado com a assinatura do Tratado de Versalhes, compõem um cenário simétrico à América nascida da crise de 1929. Nesse enquadramento, no pesadelo desenhado por Roth, surge Charles Lindbergh, herói popular americano dos anos 20 e 30, pioneiro da aviação, pai de uma família atingida pela tragédia do rapto e assassinato de um filho ainda bebé, num caso que comoveu a opinião pública. E o nevoeiro da ficção vai corroendo os pilares da realidade.

Na realidade, Lindbergh realizou o primeiro voo solitário e sem escalas entre os Estados Unidos da América e a Europa, aterrando não só em Paris mas também no imaginário e no panteão popular americano. Na realidade, Lindbergh era também assumidamente anti-semita (tal como muitas outras figuras de relevo social e económico americanas) e piscou muitas vezes o olho ao regime de Hitler. Na ficção distópica de Roth, Lindbergh capitalizou o seu estatuto de herói para arrebatar, por aclamação, a nomeação como candidato a Presidente dos Estados Unidos e conquista a presidência imediatamente e quase sem oposição. Iniciando um obscuro programa de cumplicidade com o Terceiro Reich, que sistematiza uma campanha de gradual hostilidade pública, social e institucionalizada contra a comunidade judaica americana, impõe uma política não intervencionista em relação à Segunda Guerra Mundial, que abre a Hitler as portas para a conquista do mundo.

Mas esta é a plataforma para a primeira camada de leitura deste romance. E essa camada podia ser a única, fazendo deste livro uma leve obra para leitura de verão, se os nossos dias reais não fossem de forma tão verosímil parecidos com esses dias de ficção, e se os americanos que aclamaram e elegeram Lindbergh ficcionalmente, e os europeus que tomaram parte nos delírios fascistas na realidade não fossem tão parecidos connosco, com esta América e com esta Europa reais, de hoje. Porque o rancor cego desta multidão, a sua impotência, o seu medo, os seus preconceitos e o mal que a domina são os nossos.

Nas páginas daquele romance não vivem apenas as suas personagens e os seus concidadãos. Somos nós que ali estamos. Porque nós somos a Europa que não acolhe, a Europa que fecha portas e expulsa. A Europa que começa a perseguir e a punir refugiados em novas “noites de cristal”. A Europa de Órban, Salvini, Le Pen. A Europa do julgamento fácil. A Europa em novo processo de feudalização, desagregada, cansada das ideias de solidariedade, da ideia de protecção social universal. A Europa mesquinha, egoísta, colérica. E os Estados Unidos elegeram e vivem, sem um projecto sólido de resistência interna, a presidência de Donald Trump. E projectam muros que os separam das suas ideias fundadoras. Os Estados Unidos que cortam os fios microscópios da própria fibra ocidental. Que sacrificam a filigrana dos nossos sonhos colectivos e do esforço dos nossos pais, dos nossos avós e dos avós deles. Que tentam dividir para reinar, porque reinar dessa forma é mais fácil, mais barato.

Tal como Lindbergh, no livro, Donald Trump chega ao poder em consequência de um longo e complexo processo de chantagem, da ingerência estrangeira no processo eleitoral de um país soberano e de uma conspiração que pode ainda vir a superar a mais rebuscada ficção. Tal como Lindbergh, Trump cavalga ainda a oportunidade do desemprego, a raiva dos excluídos, a devastação de uma crise económica recente. E como Lindbergh, Trump isola a Europa, deixando-a vulnerável e entregue a si mesma. Entregue, tal como os Estados Unidos, à ignorância, à desconfiança e à pulsão assassina de um país interior que também já conhecíamos de filmes como “Easy Rider”, que nos ensina que os nossos sonhos de paz, de amor e liberdade são para morrer à nascença, e para esbarrar com violência nas margens inóspitas e nos desertos esquecidos do mundo. Na mesma paisagem humana de miséria, preconceito, ignorância e isolamento.

Nas páginas de Roth, este pesadelo é visto pelos olhos de um adolescente. A inocência que morre nele é a nossa, é a de toda uma civilização. A sua pulsão afectiva, sexual, ainda pueril, e a filigrana frágil da sua felicidade, da sua normalidade, são rapidamente sacrificadas pela mesma vertigem rápida que nos consome os dias, perante o nosso olhar impotente. E as personagens mais desprezíveis de Roth são as que decidem não tomar um lado, e ir com a corrente. São as que decidem dar um manso aval, não confrontar os próprios homens do seu tempo, e com isso, colaborar.

Na ficção como na realidade, Trump e Lindbergh são duas figuras alheias à própria ideia de política, ambos com lugar na cultura popular imediata, ambos racistas, ambos ricos, ambos empreendedores, ambos anglo-saxónicos. Num texto para o New Yorker, Richard Brody notava que nesta pulsão, a dos homens e mulheres que os elegeram, na celebração de uma raiva subconsciente, é sacrificado todo um património comum de base, toda a ideologia fundadora da nossa civilização em prol do culto ao individualismo, liberal, do self made man, também ele inscrito no nosso código genético colectivo. Uma ideia, um só elo do nosso alfabeto genético que degenera, assalta e corrompe todo o organismo, como um cancro. E a civilização ocidental como um corpo, doente.

No livro, na ficção, como na realidade, é a guerra, neste caso a Segunda Guerra Mundial, que purga, que resolve, que traz a solução. Na realidade, nos nossos dias, qual será o nosso destino?
Até ao início da guerra, no livro, o que salva e mantém unida uma família, depois um país, e em última análise uma civilização, é um estranho anti-corpo, porventura o mais resiliente de todos: o amor. O amor em todas as formas, individual mas também colectivo, é também a solidariedade, a fidelidade a uma ideia fundadora de humanidade e entreajuda.

Os bons livros são muitas vezes espelhos. Talvez venha daí o medo que temos de os ler. De os olhar bem nos olhos, para lhes perscrutar a alma. Porque essa alma escura, assustada, é na realidade a nossa.

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