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Os 10 melhores livros alguma vez escritos por jornalistas

Não é segredo que a literatura e o jornalismo sempre partilharam uma identidade comum. Alguns dos mais brilhantes jornalistas de sempre foram igualmente escritores de sucesso. Seja sobre a forma de compilações de reportagens em série, relatos de viagens, aventuras e expedições, ou investigações que acabaram por resultar em livros, a Lua Eléctrica escolheu 10 exemplos que cruzam o melhor de dois mundos, duas artes. Confira e deixe-nos a sua opinião nas nossas páginas das redes sociais!

10 – Eduardo Galeano – Dias e noites de amor e de guerra

Considerado por muitos a voz da libertação da América Latina, e do seu jugo colonialista, Galeano fundou o semanário “Brecha”, do Uruguai. Foi precursor de um estilo de jornalismo de causas, narrativo e literário. As suas convicções puseram-no na mira da ditadura do seu país, obrigando-o ao exílio em Espanha. O seu prestígio abriu aos seus textos as portas de alguns dos mais reputados jornais do mundo. “Dias e noites de amor e de guerra” é uma compilação de memórias e textos que cristalizam e prestam homenagem às memórias e vidas de todos os que sofreram e resistiram sob o pesado período das ditaduras da América do Sul. Uma celebração da vida, da militância e da liberdade.

9 – Ryszard Kapuscinski – Ébano

Existem poucas listas de leituras de referência para futuros jornalistas que não incluam Ryszard Kapuscinski, verdadeira lenda do jornalismo literário, de viagem e investigação. Nascido e forjado sob o terror Nazi e Estalinista, viajou pelo mundo e acompanhou lutas de libertação, revoluções e guerras. “Ébano” é o relato de uma série de viagens por diversos países africanos. É o resultado de um longo conjunto de aventuras, reportagens, entrevistas e um verdadeiro desfile de personagens que, pelo efeito de maturação do tempo, nos desvendam o espectro de acontecimentos que se estende do optimismo das lutas de libertação ao eclodir de uma miríade de guerrilhas locais. Uma súmula de história, geografia, jornalismo e literatura. Um poema real sobre África.

8 – Gabriel García Márquez – Notícia de um sequestro

O mundo dos livros e da edição começa agora, pelo menos em Portugal, a desvendar aquela que foi uma tão óbvia quanto oculta faceta de um escritor incontornável: a de repórter e jornalista. Jovem repórter e colunista do “El Espectador”, os seus textos cedo desagradaram à ditadura e ditaram o périplo de viagens e experiências de um escritor maior, que sempre se identificou como jornalista, sobretudo. “Notícia de um sequestro” relata um período traumático da história colombiana, em que Pablo Escobar ordenou o sequestro de diversos jornalistas e opinion makers que ameaçavam a imagem do lendário líder do Cartel de Medellín. A radiografia genial de um país temperamental, violento e emotivo, embrenhado no medo, que tenta enfrentar os seus próprios fantasmas. Por um eterno mestre da escrita.

7 – Hunter S. Thompson – Delírio em Las Vegas

Enviado para a cobertura de um evento de motociclismo em Las Vegas, a reportagem do fundador do Jornalismo Gonzo, inicialmente publicada em partes pela Rolling Stone, acabou por se tornar um livro clássico, que define a América saída das convulsões do pós-guerra e da revolução hippie. “Delírio em Las Vegas” é uma viagem literalmente alucinada aos bastidores do modo de vida americano e dos pedaços estilhaçados desse sonho fragmentado pelo excesso, pela artificialidade, pela síntese ideal de decepção e afecto. Road trip nostálgica, poética, vibrante, descoordenada, na esteira beatnick, este livro pode ser olhado como uma metáfora de uma página única da história da América.

6 – Jack London – Vagabundos cruzando a noite

Escritor e jornalista profundamente activo, Jack London foi sobretudo um aventureiro. Se ainda hoje sobrevive a ideia romântica de um certo jornalismo polvilhado pelo perfume da literatura, onde se torna difícil discernir a fronteira entre realidade e ficção, onde quem escreve sofre e relata a rudeza e o perigo de cada viagem, disposto a sacrificar o seu conforto pela possibilidade de levar cada leitor ao âmago de cada reportagem, devemo-lo sobretudo a ele. A vida de Jack London corporiza o sentido aventureiro e de procura de oportunidades no âmago do pioneirismo americano. “Vagabundos cruzando a noite” é um relato de viagem ao mundo dos desapossados, vagabundos ávidos de horizonte e dos imensos céus estrelados da América, por entre viagens clandestinas em vagões de comboio e sonhos desfeitos. Despojado, lúcido, duro e fundamentalmente poético.

5 – Mark Twain – As aventuras de Tom Sawyer

Samuel Clemens, jornalista, empresário, tarefeiro, escritor, e sobretudo aventureiro, é também conhecido como o pai da moderna literatura americana. A sua vida, visão e talento de cronista permanecem principalmente associados ao rio da sua vida, o Mississípi, em cujas margens se espraia a infância de todos os seus leitores, e a do seu próprio país. Espectador das grandes convulsões, guerras e empreendimentos que definiram a identidade da América, as suas páginas são uma síntese de humor, melancolia e literatura maior. “As aventuras de Tom Sawyer”, por muitos considerada, a par com “Hucleberry Finn”, a grande novela americana, é um daqueles livros que se instala dentro de cada leitor, pelas várias camadas de leitura, cuja espiral nos conduz ao âmago do que significa crescer enquanto indivíduos e civilização. Simplesmente obrigatório!

4 – Charles Dickens – Grandes Esperanças

 Não é também especialmente conhecida do grande público a faceta de jornalista de Charles Dickens, mas a mesma esteve no âmago da sua vida e do seu talento enquanto escritor. Fundador do “The Daily News”, Dickens depressa se familiarizou com praticamente todas as tarefas associadas ao jornalismo: fundador, repórter, editor, freelancer. Não é de resto novidade que os seus livros são o reflexo de uma crítica depurada, profissional, naturalista, da dimensão obscura da revolução industrial e do reverso do sonho de crescimento e riqueza das grandes nações. “Grandes Esperanças” , tomando como metáfora a vida de um órfão que subitamente recebe uma inesperada fortuna, desenha com virtuosismo as dores de crescimento de uma metrópole (Londres) e de um novo paradigma de uma civilização.

3 – Truman Capote – A sangue Frio

Exemplo maior de uma reportagem literária, de “A Sangue frio” dir-se-ia que foi fundador de um novo estilo que cruza com brilhantismo a escrita jornalística, de viagens, de romance policial e sociologia, num híbrido literário brilhante, mas difícil de caracterizar. O brutal assassinato de uma família no estado do Kansas, em 1959, desperta o interesse de Capote, que viaja para a pequena localidade de Holcomb no sentido de escrever uma reportagem sobre o caso para o The New Yorker. Por entre entrevistas à comunidade local, crónicas de hábitos e geografia  e tornando-se confidente de um dos assassinos, entretanto capturados, Capote começa a arquitectar um texto que depressa captaria o imaginário de um número crescente de leitores, até se tornar num livro icónico e verdadeiramente pioneiro.

2 – Ernest Hemingway – Por quem os sinos dobram

Os grandes exemplos de cruzamento entre jornalismo e literatura nascem de uma profunda ligação ao seu tempo próprio e à história. Os grandes escritores viveram um conflito apaixonado com a sua época e é essa a sua garantia de eternidade. Hemingway acompanhou a facção republicana na Guerra Civil de Espanha até à batalha de Ebro, como correspondente para a North American Newspaper Alliance. “Por quem os sinos dobram”, que acompanha a história de um voluntário americano na guerra civil espanhola, do lado republicano, é uma síntese inesquecível entre ficção e a realidade que necessariamente a alimenta. É também um testemunho emocionado do valor dos ideais, da camaradagem. Uma homenagem recíproca entre vida e literatura e uma prova irrefutável de que as duas se alimentam uma da outra. É, sem dúvida, um hino magistral às duas.

1 – George Orwell – Homenagem à Catalunha

Mítico colaborador do Jornal “The Observer”, Orwell cedo demonstrou, quer enquanto jornalista, quer enquanto romancista, uma convicta oposição ao totalitarismo e ao imperialismo. Diz-se que quando fez escala em Paris, a caminho da Guerra Civil de Espanha, Henry Miller tentou demovê-lo e convencê-lo de que seria uma absoluta estupidez colocar em risco a sua vida por uma guerra alheia, em nome de um ideal. Orwell já sabia certamente que ao destino da humanidade não é alheia a sorte nem a luta de nenhum homem. “Homenagem à Catalunha”, não é apenas uma carta de amor cega a um povo e a um ideal, é também um manifesto de rigor, precisão e um hino à verdade. Orwell combateu pelos republicanos em diversas frentes, foi ferido e viu o destino de um povo ameaçado por dissidências internas na sua facção. De tudo isto deu conta, na sua precisão jornalística, no seu brilhantismo literário e no fulgor heróico de homem e combatente. Para nós ficou um livro, um clássico da literatura e da coragem.

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