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O nosso eterno amor às capas dos livros

Quem nunca se apaixonou por um livro à primeira vista que se acuse. Quantas vezes uma capa de um livro já nos levou, no mínimo, a querer conhecê-lo melhor, sem que o título ou o autor nos diga o que quer que seja? Às vezes entramos numa livraria sem uma ideia concebida do que queremos. Queremos ser surpreendidos, arrebatados. E é aí que o grande design entra em jogo. A Lua Eléctrica procurou a opinião de grandes leitores, críticos e designers, para tentar perceber alguns dos segredos que estão na base de uma arte que convoca psicologia, sociologia, história e marketing.

Todos sabemos o essencial sobre uma capa de um livro. Ou julgamos que sabemos? O desafio de base é o de compatibilizar uma ideia de síntese, de representação, de sugestão de conteúdo, num esforço para aguçar o mistério mas deixar-nos ainda mais distantes. Uma boa capa dá-nos uma resposta, mas deve levantar ainda mais dúvidas. Uma capa aspira por vezes a comunicar-nos tudo, mas essa é a sua primeira utopia e pode ser a sua primeira fraqueza.

 Num artigo para o site “Artsy”, Rachel Willey, designer para editoras como a Hogarth Press começa por confessar que o primeiro perigo para um designer de capas é o de se apaixonar pela própria história, pelo livro em si, porque isso poderá dar-lhe o instinto de querer representar todo o livro na capa. Talvez por isso mesmo, para fintar essa ideia de um designer submisso e prostrado ao poder do texto, o site The Culture Trip, numa resenha sobre os designers editoriais americanos históricos, que incluiu figuras míticas como Peter Mendelsund ou Alvin Lustig, sublinhava o posicionamento rebelde, independente, criativamente autónomo de um designer de capas, nas palavras de Chip Kidd, para quem o essencial no design de uma capa era “criar uma obra de arte ao serviço de outra obra de arte”.

 Mas o que distingue uma boa de uma má capa? Vamos começar pela parte inesperada da questão, e falar em capas más. Não é propriamente raro esbarrarmos em galerias e rankings de más capas pela internet fora. De alguma forma, elas exercem sobre nós um estranho fascínio. São em muitos casos construções idealistas, esforçadas, utópicas, pretensiosas, perdidas em si mesmas. O que elas nos lembram é que as mesmas regras que estão na base de uma capa perfeita, quando levadas demasiado a sério degeneram nos piores exercícios possíveis, sugerindo essa velha máxima de que na arte, a fronteira entre o bom e o mau é por vezes uma barreira muito subtil.

 Parámos numa lista breve, preparada pelo The Guardian. Uma das capas escolhidas, na tentativa de captar a aura gótica de “Charlie e a fábrica de chocolate” deixou-nos uma imagem mortiça e artificial de um detalhe da história. Numa outra, a tentativa de sublimar o potencial romântico de um livro de Emily Brontë traduziu-se na imagem de uma rosa real em fundo escuro, porventura demasiado simplista e redutora. Uma outra capa de uma obra de Sylvia Plath, na tentativa de criar um cenário de ambivalência cromática e densidade psicológica, apresenta uma imagem que tanto poderíamos associar à história como a um asséptico anúncio de maquilhagem da década de 50.

 O que têm em comum todas elas? Talvez o academismo, o excessivo respeito pelas regras, a formalidade oca que impede a centelha de génio, de imprevisto. Todas elas querem jogar com as regras de mercado, querem ler-nos, compactar-nos. Todas elas desrespeitam os leitores porque partem da premissa arrogante de que já nos conhecem, e desistem de nos surpreender.

 O melhor por isso, num exercício impossível de intuição dos preceitos que levam a uma capa genial, o que já em si pode ser uma traição à necessidade constante de improviso e surpresa que ainda nos pode arrebatar, é ouvirmos a opinião dos grandes “players”, a elite de designers que sabe perpetuar o nosso eterno amor à capa de um livro.

 Para o site “The Vulture”, instada a comentar a sua própria capa para o livro “Cherry” de Nico Walker, pela editora Knopf, eleita, na nossa opinião justamente, como uma das capas de 2018, Janet Hansen afirma que o segredo foi precisamente o de ignorar regras. A designer tentou deliberadamente esquecer o que deve ser a capa de um livro, e só se preocupou em intuir a própria voz do texto. Para além disso, subverteu as regras visuais, de proporção e de formato tradicional. Ouvindo as vozes certas, ignorando as outras, ficou livre para exercer a sua magia.

  A designer Zoe Norvell, na base de cujo Hype pode estar precisamente o facto de estar a criar uma linguagem visual absolutamente original e disruptiva, defendeu numa entrevista para o site “Medium” que o segredo está nessa química por vezes ininteligível entre o simbólico e o concreto, entre o orgânico e o espiritual, entre o tradicional e o inédito. Em que doses exactas de cada? A designer sabe que não se chega imediatamente lá. Há um processo de pesquisa, de experimentação, por vezes frustrante. Até que chega aquela ideia concreta, que reúne “arrojo, e que é única”.

 Num artigo de Kyle Vanhemert para a Wired, em torno do grande mestre do design gráfico editorial, Peter Mendelsund, ficamos talvez mais perto da verdade, se é que ela existe. Mendelsund pouco ou nada ligava aos ditames da indústria, que para cada leitor, para cada sector demográfico, para cada segmento de cliente parece gerar uma fórmula, repetida até à exaustão. Para ele, sempre foi preferível fazer uma capa desagradável a uma capa vulgar. E o segredo absoluto é nunca cair na simplificação. Um designer que visite o livro em busca de pistas visuais parte normalmente com ideias pobres para a criação da capa. Para criar algo de único, tem de se embrenhar nas camadas de leitura mais profundas de um livro.

 Talvez seja esse o território onde um designer encontra o leitor, no território bem real da nossa fantasia e imaginação, simultaneamente carnívoro e psicológico. Onde vive tudo o que mais nos interessa nos livros. Sonhos e inquietações. Um bom designer, saberá encontrar-nos se nos souber procurar, se estiver disposto a fazer essa viagem.

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