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O melhor da nova literatura asiática

Talvez nunca tenhamos precisado tanto dos livros como agora. Das viagens que eles nos oferecem, dos mundos que nos mostram.
Talvez nunca tenhamos sentido tanta vontade de observar outros destinos, outros mundos, outras formas de ver e sentir.
Nos livros descobrimos plenamente, a partir da forma mais pura de solidão, que afinal nunca estivemos sozinhos.


A Lua Eléctrica leva-o, neste pequeno guia, a descobrir a força e a arte únicas da nova literatura asiática.

A vitória em toda a linha do filme “Parasitas” na última edição dos óscares é apenas a última e mais visível demonstração que a escrita asiática vive um momento ímpar, que nos apanha de surpresa por via do nosso olhar porventura mais centrado na produção ocidental.
E começamos por falar de cinema neste texto de literatura precisamente porque não há cinema sem escrita. A literatura, nas suas diversas formas e no seu expoente fulcral, é também a base da magia do cinema.

Num artigo escrito para a “Inverse”, Eric Francisco refere-se ao extraordinário salto de qualidade do cinema sul-coreano, que é afinal um processo de evolução com vários anos e que apenas surpreende os que andaram mais distraídos.


Saídos essencialmente do colapso financeiro de 1997, a geração de Park Chan-wook, Bong Joon-ho ou Kwak Jae-yong ajudou a desenhar uma estética e uma identidade próprias, que mistura muitas vezes o domínio do fantástico e da ficção científica com o comentário social.
Poderíamos até colocar a questão: não foi essa precisamente a fórmula do realismo mágico, que catapultou a literatura sul-americana para o topo da literatura mundial? A qualidade da escrita esteve sempre na base de uma evolução que permitiu a esta geração de realizadores bater o pé à milionária indústria de Hollywwod com uma pujança irreversível que consagrou o cinema sul-coreano no próprio altar de Los Angeles.

E quanto aos livros? A qualidade da escrita asiática não é propriamente uma novidade absoluta para os ocidentais. Desde 1913, autores como Rabindranath Tagore (Índia), Yasunari Kawabata (Japão), Gao Xingjan (China), Mo Yan (China) ou Kazuo Ishiguro (Japão) consagraram a sua escrita através da mais consensual e prestigiada distinção literária universal: o prémio Nobel da literatura.

Num artigo escrito para a “Post Magazine” já no início deste ano, James Kidd arrisca mesmo afirmar que pertencem a escritores asiáticos alguns dos livros mais aguardados de 2020, sinal inequívoco de que o mundo ocidental está já bem desperto para a qualidade da nova escrita asiática e que a mesma já conquistou os leitores e o mercado editorial à escala global.

Não será fácil destacar um conjunto uniforme de características da nova vaga de literatura asiática, pela multiplicidade de realidades locais, estilos e preocupações. Mas em muitos textos críticos sobre o tema sobressaem os elogios à atenção ao detalhe, à complexidade emocional, ao rigor e autenticidade científicos nas distopias, a uma profunda crítica social e política e a um sentido pop e de sensualidade muito mais apurados do que o que estamos neste momento habituados, e do que poderíamos esperar do alto da sobranceria do nosso olhar ocidental. Num artigo para a “Book Riot”, Stacey Megally chega mesmo a afirmar que por ter lido recentemente diversos livros de novos autores asiáticos renovou a sua fé na ficção e elevou os seus padrões de exigência em relação a diversos géneros literários, do policial à ficção científica.

Mas quem é afinal esta nova geração de escritores asiáticos que conquista a passos largos a imaginação e a veneração de leitores em todo o mundo?

Para os leitores mais familiarizados com a língua inglesa, trazemos uma lista dos livros mais citados em sites sobre a nova literatura chinesa, japonesa e sul-coreana.
Livros traduzidos para o inglês mas ainda não disponíveis em Portugal.

  • Wang Shuo – Playing for thrills
  • Yan Lianke – The day the sun died
  • Yiyun Li – The vagrants
  • Yu Hua – Chronicle of a blood merchant
  • Yan Lianke – The four books
  • Yoko Tawada – The Last Children of Tokyo
  • Hiromi Kawakami – The Nakano Thrift Shop
  • Toshiki Okada – The End of the Moment We Had
  • You-Jeong Jeong – The Good son
  • Jung-Myung (J.M.) Lee – The investigation

De entre a melhor nova literatura asiática já traduzida para português, escolhemos 5 exemplos de livros e autores:

5 – Uma cana de pesca para o meu avô – de Gao Xingjian

Prémio Nobel da Literatura, Gao Xingjian traz-nos neste livro um conjunto de seis contos bucólicos, contemplativos, pautados por um lirismo doce e terno. Profundamente humano.

4 – O Tigre Branco – de Aravind Adiga

A intensa fábula de Aravind Adiga, vencedora do Man Booker Prize, que é afinal uma feroz crítica às desigualdades sociais e ao âmago violento da Índia profunda.

3 – Refugiados – de Viet Thanh Nguyen

Vencedor de um Prémio Pulitzer, O livro de Nguyen compila vinte anos de contos sobre histórias de família, amor e sonhos de quem vive dividido entre países e culturas. Entre mundos separados por muros.

2 – Inofensivas como tu – de Rowan Hisayo Buchanan

Aclamada pela crítica, a poderosa ficção de Rowan Buchanan fala-nos de abandono, cisões familiares e de como a história e a cultura estão por detrás de todas as nossas decisões. Misterioso e sublime.

1 – O eco das cidades vazias – de Madeleine Thien

Finalista do Man Booker Prize, Thien traz-nos uma história de assombro perante os horrores do totalitarismo e do genocídio. Político e lírico, numa síntese que impressionou leitores e críticos de todo o mundo.

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