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O incrível regresso das Livrarias Independentes

Nos últimos anos fomo-nos deparando com a notícia do encerramento de diversas livrarias independentes e acabámos por descobrir que este não é um fenómeno exclusivo de Portugal.
O que é surpreendente é que vamos tendo, cá e lá, mais ou menos na mesma medida, notícias de abertura de novas livrarias. As notícias da morte das livrarias independentes podem, neste sentido, ser manifestamente exageradas.
Mas o que distingue e determina o sucesso e o fracasso neste modelo de negócio? Quais as tendências de futuro? Fomos analisar a opinião de especialistas pelo mundo fora e alguns case-studies nacionais e internacionais, na busca de respostas a estas questões.

Já nos habituámos a receber, nos tempos mais recentes, as notícias de encerramento de livrarias que nos habituámos a amar. A Pó dos Livros, em Lisboa, foi um exemplo paradigmático. Eleita a Melhor Livraria Independente, pela Booktailors e pela Revista Ler, chegou a ser eleita a segunda livraria preferida dos lisboetas.
Mas não resistiu, segundo as declarações do reponsável pelo espaço, às rendas elevadas, à competição das grandes cadeias e ao hábito crescente entre leitores de adquirir livros online, ou de consumir ensaios ou livros técnicos em suporte digital.

No Porto, já em 2017, o Expresso dava conta do encerramento de duas livrarias míticas: a Livraria Sousa e Almeida e a Livraria João Soares. Livreiros e alfarrabistas com décadas de tradição e leitores e frequentadores assíduos, receberam ordens de despejo. No caso da Livraria Sousa e Almeida, o espaço foi mesmo adquirido por uma cadeia de hotéis de luxo. Ambas foram vítimas da pressão imobiliária e do estrangulamento turístico que se tem vindo a verificar no núcleo urbano das princiapis cidades portuguesas.
O mesmo sucedeu com os alfarrabistas da Rua do Alecrim, em Lisboa, negócios familiares nalguns casos de terceira geração.
No início de 2018, a Sociedade Portuguesa de Autores, também alarmada com o encerramento da Aillaud & Lellos, na Rua do Carmo, e da Book House (Saldanha), fazia um apelo desesperado ao governo, no sentido de desenvolver medidas de apoio extraordinárias que pudessem evitar o encerramento anunciado e progressivo destes espaços.

A Poetria, no Porto, chegou a ter a sua viabilidade ameaçada, mas sobreviveu, como veremos mais à frente. E em Lisboa, surgiram entretanto novas livrarias, como a Distopia ou a Tigre de Papel. No Porto a Flâneur. E sobrevivem em Lisboa a Cossoul, a Palavra de Viajante, a Leituria, a Letra Livre ou a Ler Devagar.
E subitamente, no que parecia um cenário irreversível que levaria ao desaparecimento total das pequenas livrarias, começámos a entrever sinais de uma situação inversa.
O que determina exactamente esta linha ténue entre sucesso e fracasso? E que factores explicam o surpreendente recrudescimento de um negócio que parecia em vias de extinção, cercado e ameaçado, mas que paradoxalmente vai conhecendo manifestações espontâneas de vitalidade?
Como num fractal, Portugal é apenas, e à sua escala, parte de uma verdade e de um sentido global, e por isso fomos tentar perceber as manifestações deste fenómeno na Europa e nos Estados Unidos da América.

Já em 2017, Alison Flood, num artigo para o The Guardian, se interrogava sobre os motivos que estavam na base de uma surpreendente constatação: pela primeira vez desde 1995 tinha crescido o número de livrarias independentes. Foi falar com diversos livreiros de margem, de bairro, independentes. E encontrou uma receita comum, transversal, de sucesso: práticas pioneiras, resiliência e criatividade. Cada um dos negócios que conheceu tinha uma espantosa implantação no espírito de cada pequena comunidade onde se inseria e uma enorme interacção com a mesma.
Com a criação de Clubes de Leitura, Horas do Conto e muita atenção ao público infantil, por exemplo, estes novos livreiros locais desmistificam e aproximam os livros dos leitores. Dão vida aos livros que vendem. E logo neste artigo, a jornalista deixava uma pista essencial para o sucesso: a atitude das próprias pessoas, leitores locais, como cada um de nós, numa participação mais activa e consciente.

A CBS, cadeia de notícias americana, já em Abril de 2018 traçava o mesmo quadro e não se coibia de mencionar aquilo a que chamou de “boom” de pequenas livrarias, que contra todas as expectativas floresciam por todos os pequenos cantos dos Estados Unidos da América.
As livrarias que figuram nesta reportagem organizavam eventos de natureza distinta nos seus espaços, fazendo da animação cultural a pedra de toque da sua identidade. Todos os livreiros aqui retratados foram unânimes no sentido de identificar que o verdadeiro motor da mudança é a progressiva percepção, por parte dos leitores, de que a compra de um livro não é simplesmente um acto de consumo, mas também um acto comunitário, de partilha afectiva em cadeia. Esse é o laço que estas novas livrarias criam e fomentam com os leitores locais.

O jornalista Jonah Bromwich, num texto para o New York Times, partia da constatação desse retorno das pequenas livrarias para traçar elementos-chave para o sucesso. A escolha do próprio local da livraria é, segundo o repórter, decisiva: a aposta deve recair em locais à partida menos óbvios, e onde não existam mais livrarias, ou seja, onde efectivamente exista necessidade e não saturação, e onde exista uma comunidade com sentido de identidade, com sentido de si própria. E nenhum aspecto deve ser menosprezado: o design interior e exterior deve ser convidativo, original, confortável, sonhador e preparado para todos, com uma atenção especial aos mais novos, uma vez mais.
Cada título disponível deve ser alvo de uma escolha criteriosa, numa selecção de livros orgânica, muito adaptável à sazonalidade e com uma atenção especial à actualidade, tendências e efemérides.

Mas esta é a realidade anglo-saxónica. Como é a situação nos países da Europa, especialmente na Europa do Sul?
O jornal ABC, em Espanha, traçava em Novembro de 2018 um quadro de preocupação, com sentido de alguma instabilidade, mas com laivos de optimismo. Este periódico referia que a Lei do preço Fixo parecia não estar a proteger as livrarias independentes: continua a haver uma percepção algo “preguiçosa”, persistente, nos consumidores, de que a compra nas grandes superfícies acarreta vantagens. Mas o número de livrarias que abre parece compensar o das que encerram, e parece haver um interesse global em construir um roteiro nacional de livrarias que possam acolher sessões de lançamento e apresentação de autores nacionais.

Já em Itália, o “L’ Espresso” dá conta de assimetrias regionais nos hábitos de leitura, identificando algumas zonas do sul do país onde é urgente cultivar de forma mais intensa essa apetência. Em Itália, observa este jornal, as livrarias independentes estão a começar a ser vistas como mais efectivas e genuínas no contacto entre editores e leitores, porque conhecem melhor o que vendem. Uma livraria local é um centro de difusão e celebração cultural, e esse pode ser o principal trunfo contra ameaças tão fortes como a venda online por parte de gigantes como a Amazon.

Publicações à escala global como a Publishers Weekly, a Book Business ou a City Lab, são unânimes ao identificar os segredos por detrás do ressurgimento das pequenas livrarias locais e independentes: o carácter local; o reinventar da experiência do leitor; a curadoria de todo o tipo de eventos; mas sobretudo o foco na parte emocional: a de construir memórias, experiências, em torno da compra de um livro.

Mencionámos anteriormente o interessante caso da sobrevivência da Livraria Poetria, no Porto. Nuno Pereira e Francisco Reis, os novos gerentes do espaço, apostaram na livraria quando a mesma parecia condenada ao encerramento. Vão associar à Livraria uma pequena editora e apostar nos eventos. Apostam na poesia enquanto terapia, e em declarações ao Público referiram até um protocolo com uma associação de crianças e adultos com necessidades especiais.

A verdade é que muitos dos casos de sucesso que começámos por referir no início do texto praticam os princípios que a maior parte dos textos e reportagens que analisámos referem. A Tigre de Papel, na zona de Anjos, em Lisboa, tem uma forte implementação na comunidade local, vende livros escolares e promove tertúlias e workshops. A Centésima Página (Braga), a Fonte de Letras (Évora) ou a Arquivo (Leiria), incidem igualmente nessa relação estreita com as suas comunidades e nessa dinâmica de compromisso local. A Ler Devagar, no LX Factory, tem a seu favor a sua localização num Hub criativo e empresarial que vive um Hype, mas também um impactante conceito visual interior. A Palavra de Viajante ou a Letra Livre fazem da especialização do seu conceito um factor de carisma entre os seus frequentadores fiéis. A Flâneur joga por exemplo com uma selecção profundamente criteriosa da colecção para estabelecer laços de absoluta fidelidade com leitores e frequentadores.

Um artigo de Erin Bartnett para a Electric Literature parece ser mais preciso e decisivo no seu diagnóstico para o que pode realmente ser decisivo no sucesso de uma livraria independente. Dá o exemplo de uma livraria no Soho, Nova Iorque, que recebeu uma ordem de despejo mas que foi salva pelo espírito comunitário que durante anos promoveu: os seus frequentadores inundaram as autoridades locais de protestos e apelos à sobrevivência do espaço, conseguindo no final garantir a sua sobrevivência. E o segredo para o sucesso pode não ser tão aleatório quanto aparenta: talvez resida no papel dos leitores, enquanto moradores, enquanto cidadãos, enquanto consumidores, e em última análise na sua participação e consciência cívica.

As livrarias são afinal de contas espaços em construçcção, orgânicos, como nós. São afinal feitas da nossa própria matéria. Nesse sentido, esta será talvez a única certeza: a sua única garantia de sobrevivência reside na nossa capacidade de perceber o quanto as amamos, o quanto realmente as queremos.

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