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O desporto que amamos: 10 livros maravilhosos sobre futebol

A História deste desporto, a sua importância na cultura popular e episódios que desconhecia, pela pena de alguns escritores e jornalistas que também amam ou amaram o futebol. Exemplos de livros que o farão apaixonar-se ainda mais pelo desporto-rei, como se tal fosse possível.

10 – “Brasil em campo”, de Nelson Rodrigues

Nelson Rodrigues foi, também ele e à sua maneira, uma lenda. Cronista privilegiado do Brasil do século XX, acompanhou o país e a sua contemporaneidade, o seu crescimento, os seus avanços e retrocessos, do alto do seu talento de observador, escritor e dramaturgo de referência. Ruy Castro, autor de outro livro referido nesta lista, dedicou um livro ao estudo da sua vida e do seu percurso errático e vibrante. Como não poderia deixar de ser, Nelson Rodrigues habitou no coração de uma das maiores forças motrizes do imaginário popular do Brasil Contemporâneo, o futebol. Cronista, contista, colaborador de jornais e da recém criada TV Globo, nunca se retirou do olho do furacão de um desporto que trazia uma nação colossal em delírio. Neste livro, Nelson Rodrigues empresta ao seu amor pelo futebol todo o seu talento literário e de dramaturgo, para nos ensinar que a cada jogada, a cada golo, o futebol é o espelho das nossas paixões e se calhar a mais bela projeção dos nossos sonhos. Páginas de ouro, num álbum sobre a nossa eterna infância, projectada num desporto que é muito mais do que um simples jogo!

9 – “Para Lá do Relvado – O que podemos aprender com o futebol”, de Raquel Vaz-Pinto

Também esta obra de Raquel Vaz Pinto, Investigadora da Universidade Nova de Lisboa desconstrói com brilhantismo todo o universo que excede o futebol, mas que gravita em torno do mesmo. A autora propõe-se analisar o campo ideológico e sociológico que imana de um jogo que é muito mais do que apenas isso. No futebol, para além dos onze que inicialmente se defrontam a cada partida, disputam-se muitas vezes primados políticos, ideologias, disputas administrativas históricas e até filosóficas. Cada amante de futebol projecta neste desporto expectativas pessoais ou colectivas e atribui a uma simpatia clubística um conjunto de valores, causas e preconceitos que acabam por dar aos seus intérpretes e actores uma importância e uma conotação que em muito excedem as suas reais responsabilidades e capacidades. O futebol como delírio colectivo e ideológico, muitas vezes instrumentalizado para ideias que lhe são abstractas. Tudo isso em combustão, mas brilhantemente estudado e racionalmente desmontado, num livro que merece o nosso tempo. Para que possamos ver a nossa própria paixão, tantas vezes descontrolada, ao espelho, com calma e com tempo.

8 – “A Pureza Perdida do Desporto”, de Rahul Kumar

Numa tese académica de Ciências Sociais que acabou por ser publicada em livro, e distinguida com o Prémio Fundação Mário Soares / EDP, Rahul Kumar traz-nos uma visão diferente do futebol. Entendido desde logo o carácter inebriante do futebol sobre o povo, bem como a sua capacidade para concentrar e atrair as suas emoções e expectativas, as classes dominantes e os sistemas políticos, dos mais moderados aos mais totalitários nunca menosprezaram a sua própria relação com o desporto. Mais ainda, foram inúmeras as suas tentativas de o manipular e instrumentalizar ao serviço do seu programa e do Zeitgeist que tentavam impor. Foi precisamente o que tentou fazer o Estado Novo, disseminando o jogo como forma de inebriação e controlo das massas. Mas pode o futebol ser manietado, ou é demasiado livre e indómito o fluxo de energia que imana? O povo, o futebol e o poder, nas suas relações complexas, explicadas num estudo cuidado e a que vale a pena dedicar atenção.

7 – “Selvagens e Sentimentais – Histórias do Futebol”, de Javier Marías

A história e o percurso de Javier Marías confundem-se com a da própria literatura espanhola da segunda metade do século XX à actualidade. O escritor é membro da Real Academia Espanhola e a sua influência estende-se igualmente a toda a América Latina. Colaborador habitual do El País, este seu ensaio sobre futebol nasceu inicialmente como artigo jornalístico e foi posteriormente, e em boa hora, alvo de ampliação para a forma de um livro. “Selvagens e sentimentais”, fazendo jus à maravilhosa escolha do título, sintetiza, na sua interminável galeria de personagens e acontecimentos, o impacto emocional e o património de nostalgia que constitui o passaporte para a eternidade do jogo no coração popular. Ao futebol, é muito difícil ficar indiferente, porque a sua história, delirante, apaixonada, contraditória, parece-se demasiado com a nossa. A sua história é humana, na melhor e na pior consequência do que daí decorre, e parte do seu património somos nós próprios, na glória da paixão que emprestamos ao jogo. E este livro ilustra-o, com o particular brilhantismo de um escritor de eleição.

6 – “Febre no Estádio – Diário de Um Fanático”, de Nick Hornby

Nick Hornby apareceu em 2004 bem colocado num ranking das personalidades mais influentes da cultura britânica, num estudo efectuado pela insuspeita BBC. A tal não será alheio o facto de possuir um talento especial para fixar nas páginas dos seus livros algumas das obsessões populares britânicas, como a música (veja-se o papel da obra “Alta Fidelidade” para a definição da cultura popular dos anos 90, e porventura para toda uma geração) ou o futebol. Na escrita de Hornby, o papel da cultura popular perde o carácter artificial para se tornar parte integrante do comportamento, das emoções e das escolhas de vida das suas personagens, tornando-se matéria viva dos seus quotidianos. Em “Febre no estádio” o futebol deixa de ser um mero desporto e passamos a conhecer a sua quintessência corporizada. E vemos na cadência frenética da sua escrita o momento definitivo em que essa substância imaterial, metafísica, se consubstancia nas nossas obsessões, nos nossos sonhos. E a partir daí, mais importante do que tudo, a forma como estes vão comandando, indiscretamente, o rumo dos nossos destinos.

5 – “Estrela Solitária – Um brasileiro chamado Garrincha”, de Ruy Castro

Não é certamente coincidência o facto de a maior parte dos livros que aqui referimos sejam obras de autores que são simultaneamente jornalistas e escritores. O futebol tem estas duas vertentes: a emoção imediata, frenética, mas também a espuma que deixa nas nossas vidas, um carácter eterno, da matéria das memórias. Na mesma pessoa, o jornalista vive e processa os acontecimentos imediatos, e o escritor apanha os cacos, faz deles matéria-prima e transforma-os em arte e poesia. E estas últimas não morrem. Ruy Castro é conhecido por ter cristalizado em diversos trabalhos literários a memória afectiva em torno de vultos da cultura popular brasileira. Fê-lo com esse escritor e jornalista maior do que a vida que foi Nelson Rodrigues, com Carmen Miranda, mas também com Garrincha. No livro de Ruy Castro, fruto de muitas centenas de entrevistas e meses de pesquisa, Garrincha começa por ser um homem, com toda a matéria falível da qual são feitos todos os homens e mulheres, nas suas paixões, nos seus vícios, nas suas fraquezas. Depois vem o futebol, onde Garrincha era um Deus, a tal estrela solitária no alto firmamento da adoração do povo. E no final, dessa matéria perecível e fraca que faz os homens, a pena de Ruy Castro, nessa forma de escultura que é a magia literária, desenha a traços nítidos o perfil da lenda, do mito.

4  – “Dicionário Sentimental de Futebol”, de Rui Miguel Tovar

Tendo iniciado a sua carreira no jornal “Record”, Rui Miguel Tovar desde sempre percebeu que o futebol era o seu mundo. Presença assídua também na televisão, da escrita deste jornalista transparece a percepção afectiva da memória do futebol. Rui Miguel Tovar recupera, num estilo próprio e de sentido literário, um conjunto brilhante de histórias, adereços, locais e intérpretes do desporto-rei. O seu levantamento, sentimental mas metódico, faz deste livro um brilhante exercício que cruza o amor ao futebol com o esmero dedicado de um arquivista, que por carinho vela pelo património de memórias desse universo que ama. Um livro superiormente escrito e organizado, com entradas para todas as letras do alfabeto com que podemos indexar o amor ao desporto que nunca deixará morrer a infância de cada um de nós.

3 – “A Liberdade do Drible – Crónicas de Futebol”, de Dinis Machado

Jornalista, escritor, argumentista de cinema e cronista, Dinis Machado é uma lenda entre os seus pares e um autor de culto. A sua obra “O que diz Molero” foi largamente elogiada como um dos mais importantes livros de ficção da segunda metade do século XX em Portugal. O futebol, verdadeira paixão de Dinis Machado, foi o tema central de inúmeras das suas crónicas, nos jornais Record, Norte Desportivo, Diário Ilustrado ou Diário de Lisboa. A sua escrita doce, profundamente humana, cruzou-se de forma perfeita com um desporto popular, largamente amado e que desde sempre trouxe os portugueses em delírio, tornando-se parte crucial do seu ADN, da sua imaginação. Este livro reúne essas mesmas crónicas, salvaguardando com uma ideia de conjunto as horas que o autor dedicou ao futebol, acariciando-o em homenagem com o maior dos seus dons, a escrita. Nas palavras escritas por Dinis Machado, o futebol retoma o seu território de infância, de alegria, de sol e sonho, onde sempre sonhámos que ele habitava.

2 – “A tribo do futebol”, de Desmond Morris

Reputado zoólogo e biólogo, ninguém esperaria que Desmond Morris dedicasse um extenso ensaio a um tema normalmente demasiado prosaico para ocupar a mente de um cientista natural, o futebol. Mas Morris nunca foi simplesmente um cientista. Com um talento inato para a comunicação, começou desde cedo a colaborar com a televisão e a assumir o propósito de levar o conhecimento científico a audiências mais alargadas. Morris teve também sempre um talento natural para desmistificar as paixões e obsessões humanas, na perspectiva de uma explicação animal e biológica, e não apenas sociológica. Em a “Tribo do futebol” dá-nos uma explicação exaustiva, nessa abordagem, para a dimensão irracional da nossa paixão por um desporto que é também muito mais do que isso, um simples desporto, e para onde confluem diferentes vertentes da vida como fenómeno biológico, artístico, social e colectivo, e do empreendimento civilizacional. Um manual científico, superiormente composto, sobre o nosso amor a este jogo.

1 – “Futebol: sol e sombra”, de Eduardo Galeano

Escritor prolífico, jornalista, Eduardo Galeano versou sobre inúmeros temas, sempre com um sentido imaculado de amor ao seu continente de origem, a América do Sul. Teve sempre um sentido ético apontado à defesa do povo e das vítimas de qualquer tipo de opressão. O golpe militar do Uruguai obrigou-o ao exílio em Espanha, de onde só regressaria mais de dez anos depois. O seu estilo intelectual enérgico, onde relaciona com audácia diversos quadrantes da vida e da história, funde-se com um apurado sentido literário e um tom sempre doce, humano, apaixonado. Neste livro, a história do futebol é dissecada com humor, com sentido crítico, mas sobretudo com uma indiscutível nota de paixão por um desporto no qual todos os sonhos humanos se projectam. Comovente, mas profundamente honesto e genuíno, é um livro de referência para todos os amantes do futebol.

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