MENU FECHAR

Livros: a eterna vitória do papel sobre o digital

Em 2012 vivia-se o auge da euforia em torno do formato ebook.  O romance “As cinquenta sombras de Grey” tornava-se campeão absoluto das listas dos mais vendidos.  O suporte digital crescia, em vendas, quarenta e dois por cento em relação ao ano anterior. O The New York Times, numa crónica desse ano escrita por Julie Bosman, parecia encarar o ebook como o próprio motor de salvação do mercado editorial. E os dados coligidos, pasme-se, eram relativos a livros de ficção. Estes números não poderiam andar muito longe da verdade, e vamos confiar que não eram ditados por qualquer interesse de bastidores, uma vez que foram revelados por cerca de mil e quinhentas editoras americanas, entre as quais as seis maiores casas editoriais dos Estados Unidos da América.

 A liderar a euforia em torno da vitória do digital estava o gigante retalhista do mundo, a Amazon. Num artigo que data de 2010, o Business Insider alertava já para um pouco saudável monopólio do mercado editorial. Dos já consideráveis cento e trinta milhões de dólares facturados na venda de ebooks nesse ano, a Amazon contabilizava cento e quinze. O segredo era o fabrico dos leitores de livros digitais Kindle, que implicavam uma codificação que não permitia a leitura de um ebook em qualquer outro sistema. Os livros não significavam assim tanto para a Amazon, em termos de vendas, mas o controlo em si do mercado editorial não era certamente um objectivo menor.

 A 1 de Abril de 2011, Jeff Bezos anunciava que não esperava um crescimento tão grande de vendas em tão pouco tempo, e a vitória do digital parecia confirmar a obsolescência do livro tal como o conhecemos: por cada cem livros vendidos, as vendas de ebooks cifravam-se em cento e cinco ebooks. Mas o CEO da Penguin, David Shanks não embarcava ainda na euforia, defendendo que o mercado estava em constante evolução, e que as tendências eram assimétricas, havendo ainda muitas zonas onde a venda de livros em suporte de papel era muitas vezes superior à dos livros em digital.

 Passados sete anos, o discurso cauteloso de Shanks, que no seu tempo pareceu deslocado, fazia todo o sentido. A paixão dos leitores pelo ebook parecia agora conhecer sinais claros de declínio. O insuspeito The Guardian, em 2017, dava conta dos dados de 2016, assinalando um aumento de seis por cento nas vendas de livros, acompanhado de uma descida de quatro por cento nas vendas de ebooks. Era o segundo ano consecutivo em que as vendas do digital desciam, e soavam os alarmes para os gigantes editoriais que pouco tempo antes pareciam auto-glorificar-se perante o advento desta revolução.

O enorme sucesso de Paula Hawkins e Harper Lee no domínio da ficção sublinhava um dado que começava a ser óbvio: a grande maioria de leitores, perante um romance ou uma obra de ficção preferiam o livro tradicional, em papel. E mais surpreendente ainda, uma inesperada faixa etária tinha decidido claramente a sua preferência a favor dos livros em papel: os leitores entre os dezasseis e os vinte e quatro anos, ou seja, precisamente a geração em que se apostava para consagrar o triunfo do digital.

 Em 2018, num texto para o Observer, Joshua Fruhlinger abria o seu texto como uma questão lapidar: “Os ebooks acabaram finalmente?”. E o título prosseguia com “O retorno inesperado da Indústria ao livro impresso”. Já em Março deste ano, Michael Kozlowski, para o Goodereader, ao fazer um diagnóstico do estado da leitura e das vendas de livros, sentenciava, também no próprio título: “Acabou a nossa paixão pelos ebooks”.

 Mas afinal o que é que explica o súbito ocaso do paradigma digital, bem como a vitória do livro em papel sobre o ebook? Para um artigo no The Guardian, Alex Preston tinha uma resposta concreta. A ameaça do digital obrigou muitas editoras a reagir e a apostar como nunca na beleza das capas e do aspecto exterior e interior dos livros. O design editorial acabou por ser a arma secreta do livro.

Esse contraste, segundo Preston, era profundamente notório se analisássemos as capas dos livros de uma década para outra, em que passámos de uma indústria editorial acomodada para uma indústria ameaçada e obrigada a tirar proveito de todas as potencialidades do livro enquanto objecto físico. O próprio Peter Mendelsund, em declarações para o mesmo artigo, fazia notar que as características físicas do livro, com os seus cantos, as suas superfícies, os seus espaços visíveis e ocultos, eram um terreno inesgotável e muitíssimo fértil para o design de excelência.

 Mas existem muitas outras razões pelas quais a maioria dos leitores, de praticamente todas as faixas etárias, e não apenas os puristas, prefiram o livro enquanto objecto físico. Para percebermos que esta não é uma questão acessória, nem estéril, basta considerar que existem questões neurológicas que determinam a percepção do que lemos em função do suporte em que o fazemos.

Max Frenzel, para um fantástico texto na Medium, enumera diversas dessas razões. Antes de mais, se num ebook temos a hipótese de interagir com elementos acessórios ao texto, a necessária imersão profunda na leitura fica comprometida. A memória de longa duração fica melhor salvaguardada perante a leitura de um livro em papel, em detrimento de uma leitura digital que ofereça atractivos suplementares. Se lemos antes de dormir, por exemplo, um livro em papel permite um descanso posterior mais profundo do que a leitura em ecrã, o que acaba por ter consequências na qualidade de tratamento e processamento do que acabámos de ler. Alguns especialistas admitem que a leitura digital potencia o desenvolvimento da capacidade de decisões rápidas, mas a memória, o conhecimento e o raciocínio profundos saem claramente vencedores na leitura de um livro em papel.

  A indústria percebeu também um facto indesmentível em relação a ambos os suportes, e que leva a concluir que o amor ao livro em papel é mais resiliente: a esmagadora maioria dos leitores de ebooks também ama os livros em papel, ao passo que a proporção de leitores de livros tradicionais que estimam o formato digital é muito inferior. Praticamente todos gostam de livros em papel, mas nem todos estimam o suporte digital.

O livro em papel, por fim, reúne as condições necessárias para ser ao mesmo tempo um objecto clássico, eterno, de aplicação prática, durabilidade e manuseamento óptimos; mas também para conservar uma aura vintage, estética, de um carisma capaz de fazer preservar o nosso encantamento perante o seu eterno mistério.

Share your thoughts