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Literatura de mulheres e de homens: o género tem importância na escrita?

Se cada vez mais temos a noção de que as generalizações são redutoras, falíveis e potencialmente penalizadoras, porque é que a questão continua a ser colocada? De tempos a tempos, algumas das mais prestigiadas publicações do mundo na área da literatura sublinham as diferenças de género e as diferenças que estas produzem na escrita e no estilo literário.

Fomos recuperar algumas das ideias contidas nestes artigos, para identificarmos possíveis evidências mas também fragilidades nestas generalizações e ficámos a saber que independentemente de haver ou não diferenças de género na escrita, o debate faz emergir uma questão bem mais premente: o mundo da literatura, pelo menos enquanto indústria, reserva ainda lugares diferentes para homens e mulheres.

O mote para o debate pode muito bem partir de um texto de John Boyne para o The Guardian, escrito em Dezembro de 2017. O aclamado autor de “O rapaz do pijama às riscas”, habituado ao círculo da grande literatura mundial, presença habitual nos mais prestigiados eventos literários do mundo, não teve qualquer pudor de afirmar que “as mulheres são melhores escritoras que os homens”. Segundo Boyne, o lugar que a história reservou desde sempre às mulheres, simultaneamente subalterno e profundamente difícil, deu-lhes um entendimento superior da natureza humana, que se traduz numa escrita mais complexa, mais rica e fidedigna, ainda que a indústria literária continue a alimentar a dimensão egocêntrica do escritor homem enquanto estrela em si e a condescender com o talento da escritora mulher.

O próprio comportamento dos autores nos Festivais literários é diferente, segundo o autor, porque os homens estão normalmente envolvidos numa cruzada de auto-promoção, ao passo que com as mulheres é muito mais natural e fácil discutir o próprio conteúdo dos livros.

Mas se efectivamente existem diferenças, o que é que as denuncia? A publicação Quartz, num texto assinado por Thu-Huong Ha, fez um levantamento de vocabulário de obras clássicas da literatura, para tentar perceber se as palavras mais utilizadas por cada autor estão ou não relacionadas com o seu género. A amostra baseia-se em 100 livros de literatura clássica em língua inglesa  do século XX, metade de cada género, e faz uso de algoritmos informáticos. O estudo, para ser lido com algum humor e leveza, revela que os homens utilizam mais palavras como “retaguarda”,  “maior”, “civil”, “inimigo” ou “rei”, ao passo que as mulheres empregam mais vezes os termos “laço”, “almofadas”, “vestido”, “taças” ou “engelhado”. Ficamos a saber mais ou menos o mesmo, num texto que corporiza a própria definição de generalização, baseado num estudo que talvez nem se leve a sério a si próprio.

Decidimos então canalizar o nosso foco para temáticas específicas. Que diferenças de género são então identificadas por várias publicações no que diz respeito à escrita sobre o amor, ou sobre o sexo, por exemplo? E que percepções ficam nos leitores do género oposto, retratados no espelho da literatura, neste âmbito?

Para a Electric Literature, num texto de finais de 2018, Lisa Locascio caracterizava como pobre a escrita sobre sexo de autores masculinos. Para este propósito, pode tomar-se como observatório o bem-humorado “prémio” literário anual para as piores cenas de sexo produzidas pela literatura, o “Bad Sex in Fiction Awards”. Verdadeiros monstros da literatura mundial, como Thomas Pynchon ou Norman Mailler, já foram nomeados para esta indesejada distinção. Um facto incontornável desta iniciativa, por pouca seriedade que cada um lhe queira atribuir, é que 80% do universo total de nomeações pertence ao sexo masculino.

Misoginia, sexismo, falta de imaginação, são algumas das características que a autora do texto aponta como recorrentes na escrita masculina em torno do sexo, mas sobretudo a tendência para entender o território do sexo e da intimidade como um espaço que serve tão só para projectar o desejo e o imaginário dos próprios autores, mais do que abordar a experiência e os sentimentos do outro. E aqui não se trata apenas de uma falha técnica ou estética da escrita, mas de uma falha moral, defende a autora. Há demasiada certeza, demasiada auto-confiança, na escrita masculina sobre sexo, para mais num território que não é plano, mas cheio de mistérios e subtilezas.

Uma vez mais, o estatuto a que a mulher foi sendo votada pela história, a capacidade de observar de vários ângulos, sem uma perspectiva de garantia, de posse, dá-lhe a capacidade de escrever com subtileza e imaginação, desejo e imprevisto, sobre um território que assume como misterioso e não como garantido.

Já o insuspeito The New York Times foi tentar perceber o que é diferente entre géneros na escrita sobre o amor. A amostra baseia-se nos originais enviados para apreciação, por parte de autores não publicados. Apesar de o texto dar como comprovadas algumas noções que nos parecem francamente redutoras, como o facto de os homens se debruçarem mais sobre sexo e as mulheres sobre casamento, e os homens mais com acções e as mulheres com emoções, os autores do texto identificam algumas mudanças perceptíveis, principalmente no comportamento das personagens ficcionais.

Se em décadas anteriores, homens e mulheres assumiam como comportamentos normais para os homens a hostilidade, a raiva e o antagonismo, e para as mulheres o amor, o sofrimento e o medo, esses estereótipos estão hoje profundamente colocados em causa, mais esbatidos e menos visíveis, sendo muito mais complicado identificar comportamentos supostamente típicos de cada género, no universo ficcional.

O The Atlantic, num texto sobre as diferenças mais visíveis na escrita de homens e mulheres em torno do sexo oposto, faz notar que essa tarefa parece mais natural nas mulheres, talvez porque durante muito tempo as mulheres leram sobre o que a indústria literária produzia quase exclusivamente: homens, a escrever sobre si próprios. Já para os homens, e mais uma vez entrando no perigoso jogo das generalizações, a escrita sobre mulheres denuncia algum desconforto e desconhecimento, como se fosse demasiado evidente que se estão a arriscar num terreno de especulação, que lhes é quase absolutamente desconhecido. Falta pesquisa, segurança, e isso retira naturalidade e espontaneidade.

Num texto para o The New Yorker, Katy Waldman notava que qualquer leitora atenta identifica o sentido artificial e auto-congratulatório da maior parte das descrições de autores masculinos em torno de personagens femininas. Para isto contribui a evidência excessiva de um esforço denunciado e pouco natural, normalmente subtraído de um duvidoso desejo de sublimação e nobreza psicológica, de tentar captar a “alma feminina”.

Mas o que é realmente evidente neste tipo de artigos, é que as diferenças de escrita entre géneros não são muitas vezes questões estéreis, vazias e generalizadoras, de estética, ou mesmo de estilo: radicam, sim, ou destapam, questões bem mais prementes e significativas, como o lugar que a indústria literária continua a reservar para mulheres e para homens.

Num texto assinado para o The New York Times a escritora Meg Wolitzer põe o dedo na ferida: as regras de marketing, distribuição e promoção no universo literário continuam a ser profundamente penalizadoras e redutoras para as mulheres. A própria ênfase colocada no género subalterniza a qualidade e o mérito, porventura de ambos os géneros, mas sobretudo das mulheres.

O número de recensões literárias de livros escritos por mulheres, nas mais prestigiadas publicações é muito inferior ao de recensões de livros escritos por homens. Os livros escritos por mulheres estão muitas vezes confinados à anódina categoria de “ficção feminina”, e as próprias editoras sabotam a promoção das suas autoras, dando aos seus livros capas estereotipadas na ânsia de atingir o segmento de leitores a que predestinam estes livros. Existe uma permissividade maior para que os livros de autores masculinos tenham grande quantidade de páginas, ao passo que às escritoras mulheres é exigida uma maior economia e auto-edição.  Por outro lado, se a narrativa for demasiado curta, e directa,  a escrita de um homem é normalmente elogiada pela sua fluidez, ao passo que numa mulher é imediatamente associada a um género light, e menor.

Todo este sistema, profundamente enraizado, permite que seja mais fácil a um bom livro escrito por um autor homem entrar no imaginário popular e ser unânime entre a crítica literária.

Para o The Irish Times, Sinead Gleeson denuncia também o défice de reconhecimento, visibilidade, inclusão em antologias e atenção que normalmente a indústria literária dedica a mulheres escritoras.  Esta autora chega a empregar o termo “surdez”, no que diz respeito à receptividade da indústria literária a novas vozes femininas na literatura. A mulher dedica muito mais tempo a regatear e a exigir os seus direitos e estatuto na literatura, o que lhe retira disponibilidade para criar, para escrever.

Numa reportagem para o The Independent, Jess Denham refere a experiência da autora Catherine Nichols, que tendo submetido os seus originais a diferentes editoras sob nomes masculinos e femininos descobriu que existem oito vezes mais probabilidades de receber respostas positivas por parte das editoras usando um nome masculino.

Sabedores da questão do género na literatura, e no quanto a própria questão pode ser penalizadora e redutora, alguns autores com maior meta-consciência da própria indústria construíram obras que subvertem propositadamente os estereótipos associados à escrita de cada género e às características tradicionais de personagens masculinas e femininas no universo ficcional. “Orlando”, de Virginia Woolf, ou “Myra Breckinridge”, de Gore Vidal, são exemplos de livros desafiadores, porque para lá do próprio mérito literário, são livros escritos como balas, apontadas ao coração dos princípios atávicos da própria indústria.

A questão do género e das diferenças que o mesmo acarreta na escrita e no posicionamento na indústria literária poderia ser uma mera questão estéril, em que nos divertíssemos a desconstruir estereótipos. Poderia até não passar de uma questiúncula académica ou de um exercício de folclore, se a própria questão não fosse um problema institucionalizado e profundamente penalizador, que perpetua injustiças e limita a própria criatividade.

Para a publicação Medium, Giulia Blasi escreveu um artigo onde denuncia que na literatura o género importa, sim, pelas piores razões. A indústria literária, a sua crítica, o seu modus operandi, subvalorizam, subpromovem e condicionam a mulher enquanto autora. E os próprios leitores, embora não controlem as regras do jogo, agem em última instância como cúmplices involuntários neste jogo.

Existe uma diferença, sim, na forma como os géneros escrevem. A descoberta mais chocante nesta questão é que essa diferença é imposta e criada pela própria indústria literária, que define que uma mulher deve escrever de determinada forma para determinados leitores e que existe uma literatura de homens e de mulheres, para homens e mulheres. E essa rigidez nos alicerces do marketing, do design e da distribuição perpetuam uma percepção antiquada e profundamente penalizadora em termos de génio e criatividade, mas em última análise e com efeitos mais gravosos, em termos humanos e sociais.

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