MENU FECHAR

Hunter Thompson. Montar uma Harley, desmontar o sonho americano

 Allan Ginsberg; a explosão do LSD; Bob Dylan; Vietname; manifestações de pacifistas; as lutas pelos direitos civis; a Califórnia e os Estados Unidos da segunda metade dos anos 60. O confronto de gerações, de modelos económicos, de paradigmas culturais. O tempo de todos os sonhos, de todas as possibilidades, de todas as ilusões, foi também a moldura incandescente do auge dos Hell´s Angels.

 Na senda dos Angels, Hunter Thompson assina um testemunho que prova, uma vez mais, que só a literatura confere corpo e dimensão ao jornalismo, para que este possa traduzir o mundo na sua integridade e verosimilhança. Vivo, inteiro, transparente e verosímil.

Thompson ridiculariza aliás um jornalismo forjado no medo, na paranóia, no limbo obscuro de uma realidade filtrada e forjada pelo imaginário da televisão, que abstraía todo um país. Foi este o jornalismo que se debruçou sozinho sobre os Hell’s Angels, montando em redor destes um aparato circense feito de mitos, incorreções e distorções; e tecendo a filigrana de horror que compôs a sua aura e carisma perante a opinião pública.

 Foi nesta inesperada notoriedade que os Angels se fizeram transportar, sem pudor e com consentimento, para o imaginário colectivo americano.
Thompson desmistifica os Angels, mas fá-lo sempre com o cuidado de não macular o fascínio legítimo que os acompanha.

 Quem lê o seu testemunho, sente que o autor considera os Angels como parte da maravilhosa alucinação colectiva que compõe o sonho americano. Coloca-os é na face negra, como o outro lado da moeda, explicando-os como a parte organizada dos dejectos desse sonho, as fileiras armadas e entrincheiradas dos que se viram rejeitados por ele.

 A analogia com um exército medieval, a organização de índole militar, os assaltos, a violência, todo o açucar mórbido e sexual que excita a sofreguidão freudiana do comum mortal está aqui, na qualidade precisa disso mesmo: um sonho molhado e violento que foi parte da erupção da sua própria época.

 À boleia do fascínio obscuro exercido pelos Angels andaram frustrações colectivas e individuais, a psique de donas de casa frustradas e de uma burguesia entediada, o provincianismo, o desconhecimento, a curiosidade intrínseca de adolescentes. E também o idealismo mais ou menos hipócrita de toda uma geração de românticos e intelectuais de esquerda.

 Mas quando toda uma era de mudança realmente convocou os Angels para as suas convulsões, estes provaram não ter âmago de espírito, nem ter, numa eventual auto-consciência, a mesma verve e a mesma pedalada que exibiam do alto das suas motos, perante as comunidades que aterrorizavam. E nem na sombra do seu próprio mito souberam pedalar para a eternidade.

No fim, deixam a imagem efémera de um grupo que não é mais que uma soma dos seus indivíduos: figuras violentas, desajustadas e inseguras, que viram nos Angels uma sombra que os protegesse da incandescência de um sonho que os excluiu, ou a última oportunidade de um propósito. Ainda que nebuloso, indefinido, e sem qualquer substrato.

 

Share your thoughts