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Humor: Traques, Trastes e Bolas de Neve

Texto de Hugo Simões *

“It’s this fooling about. It takes the drudgery out of the work at times.”

(Plato, 30d: 1975)

Intuitivamente, sabemos o que é o humor: é aquilo que nos faz rir, ou que – não nos fazendo rir – faz alguém rir. Não é preciso ir muito além disto, mas não é por isso que se deixa de conversar.

Há várias coisas a dizer sobre o que é humor: coisas que se prendem com aquilo que o humor faz e como. Estou convencido que enquanto perdemos tempo a discutir se aquela última coisa que nos ofendeu é ou não é humor, há algures um bambi que chora.

Talvez aquilo que nos faz discutir mais a última questão do que a primeira seja o terror do pretensiosismo. E não há desculpa melhor, especialmente em relação ao humor. Um bom exemplo de uma explicação pouco adequada é-nos dado por Schopenhauer, aquele senhor alegre com os espanadores na nuca. Numa tentativa de ilustrar o quão o humor se baseia na incongruência, uma vez deu o exemplo de alguém que olha para um papel onde vê um círculo e uma recta que lhe é tangencial. Já estão a dormir? Mas ele continua: embora essa recta seja na verdade paralela ao círculo, Schopenhauer imagina um observador que a determinada altura parece ver um ângulo entre a recta e o círculo, quando esse ângulo não existe. Schopenhauer, ao que parece, achava que esta incongruência entre a realidade e a percepção do observador merecia um sorriso divertido (Schopenhauer, 1891: 272). A ideia seria demonstrar que até uma incongruência fraca como esta tem humor: mas não tem. Não propriamente.

No entanto, a ideia de que a incongruência é uma característica fundamental do humor é antiga e por boas razões. Pode, por exemplo, ser encontrada em Platão, que é sempre uma coisa boa para dizer em festas. No diálogo Socrático Filebo lemos pela voz de Sócrates que nos rimos de quem é ridículo, e que o ridículo é o vício mais contrário à máxima “Conhece-te a ti mesmo” (cf. Plato, 1975). Ou seja, rimo-nos de quem é incongruente consigo próprio, de quem age de forma incongruente com o que é: como o Black Knight no Holy Grail que se recusa a admitir que perdeu os braços e as pernas; ou o Putin fora dum asilo.

A própria palavra humor, curiosamente, traçou um caminho estranho: atribui-se-lhe uma origem no latim, em que significaria algo como humidade ou líquido. Com o desenvolvimento da teoria dos quatro humores –segundo a qual a saúde humana e o temperamento eram ditados pelo equilíbrio de quatro líquidos essenciais – parece ter evoluído para ser identificada também com o conceito de “temperamento”. Noël Carroll especula, e quando se especula mais vale ser interessante, que a palavra humor se passou a associar a pessoas cujos temperamentos se desviavam da norma, que eram vistas como excêntricas e peculiares – como fora de si. Na esteira de Platão, estas pessoas seriam material humorístico ideal, e o humor ter-se-á assim tornado naquilo que os humoristas faziam: troçar destes desequilíbrios (Carroll, 2014: 5).

Mais tarde, escritores como Schopenhauer, Francis Hutcheson, Alexander Bain e Herbert Spencer observariam que é no contraste entre o glorioso e o pueril que se encontra o humor – entre, por exemplo, os séculos de homens e mulheres que viveram e morreram para que chegássemos a este ponto na história, e um peido.

A melhor explicação a este propósito talvez seja a de Francis Hutcheson, quando diz o seguinte:

We generally imagine in mankind some degree of wisdom above other animals, and have high ideas of them on this account. If then along with our notion of wisdom in our fellows, there occurs any instance of gross inadvertence, or great mistake, this is a great cause of laughter. (Hutcheson, 1973: 110-111)

Esta é também a ideia basilar de Schopenhauer quando fala da “Vaidade da Existência” (Schopenhauer, 1908: 34). Tipicamente, e por razões desconhecidas, achamos que temos donaire. Que somos inteligentes, adaptáveis, resilientes. Quando, com isto em mente, alguém pisa caca, há motivos óbvios para nos rirmos. A incongruência que se presta ao humor não tem exactamente de ser algo objectivo, como a história do círculo e da tangente. Basta apenas que seja incongruente face às expectativas – erradas ou não – de alguém. Mas não é tudo.

Henri Bergson, no início do século XX, dedicou um livro ao assunto do “riso”. Na verdade, parece-me que podemos tomá-lo como um livro sobre humor no geral. Lá, explica que o propósito do humor é o de corrigir incongruências: especificamente, que o ser humano é tipicamente adaptável, e que quando age distraidamente, sem consciência do que está a fazer, está a agir como uma máquina. Ou seja, quando o Alfredo se espeta num poste de electricidade porque estava a contar trocos enquanto andava, está a agir de uma forma maquinal, sem capacidade de adaptar o seu percurso ao obstáculo que tem em frente, como um carro com o acelerador a fundo. Para Bergson, estarmos os dois na esquina a rir-nos do Alfredo é-lhe humilhante ao ponto de ele passar a ter mais cuidado com o que tem pela frente. Para ele, tal como para Aristóteles, o humor pode ser uma espécie de maldade (Aristotle, 2004: 79) – no caso do primeiro, uma maldade de que talvez não nos devamos orgulhar, mas que nos é natural, nos dá prazer e é útil para manter a sociedade coesa e funcional.

Esta maldade traz à colação outra ideia antiga sobre o humor: a ideia de superioridade. Simplificando: rimo-nos de quem parece ser-nos inferior, seja momentânea ou constantemente. Para Hobbes, o riso é apenas isto: uma espécie de glória auto-conglatulatória que surge quando temos sucesso a fazer algo ou quando os outros falham; um sinal de cobardia e preguiça (Hobbes, 1998: 38).

E Hobbes – outro eterno mariola –tem alguma razão: rirmo-nos do ridículo e do incongruente é difícil sem o fazermos à custa de alguém. E apesar da teoria de Bergson, a correcção através do enxovalhanço não parece ser a mais eficaz. Mais do que isso, o humor parece antes salientar a impossibilidade de uma correcção total e permanente – e tornar-nos conscientes das nossas inevitáveis limitações. Rimo-nos dos recorrentes falhanços dos outros, bem como dos nossos (uma nuance que torna a ideia de superioridade complexa), e não é por isso que eles se dissipam.

E rimo-nos principalmente porque o humor nos faz sentir bem, permite-nos disfrutar daquilo que Freud chamava o “triunfo do narcisismo” (Freud, 1961: 162) – uma aparente superioridade às nossas circunstâncias, como o condenado à morte que ao subir para o cadafalso comenta: “começa bem, a semana.”

Esta superioridade não é necessariamente à custa de ninguém. E mesmo as que até agora, neste texto, têm sido à custa de Schopenhauer e Hobbes, são de um ridicularizar óbvio, mas que serve para quebrar a carga solene que ambos os nomes comportam; para aliviar a espécie de tensão que a solenidade provoca, como observariam Spencer e Bain.  Isto não justifica ou higieniza o humor necessariamente, e o seu elemento de superioridade é real e moralmente complexo, mas no humor, como em tudo, há que abandonar a literalidade da ofensa e pensar em contexto. Em Filebo, onde também se fala sobre humor ou comédia, Platão – mais uma vez pela voz de Sócrates – aborda principalmente o prazer e a dor. Nesse contexto, fala sobre prazeres mistos: prazeres que incluem também a dor. Talvez menos obviamente do que ver oDonos Disto Tudo, o humor envolvedor – tanto a nossa como a dos outros. É possível que isto o torne especialmente apto para uma reflexão sobre a natureza mista e relacional do prazer: afinal sem dor talvez este não exista de todo, e talvez seja perigoso higienizar todo o tipo de dor na nossa sociedade.

A propósito da crueldade do humor, Bergson referia-se à “anestesia momentânea do coração” (Bergson, 1969: 3): à insensibilidade que acompanha o riso. É preciso um certo grau de distância emocional para que algo provoque a sensação típica do humor – o riso ou, no mínimo, a sensação de diversão e ligeireza que conhecemos. É preciso tratar alguém como uma personagem, como algo de impessoal para conseguir troçar dela. E é difícil achar graça a algo que nos parece um perigo real e iminente (também como o Putin fora dum asilo: é incongruente, mas caso queira drunfa-me a sopa). Traumas recentes trazem também consigo uma solenidade que se presta pouco ao riso.

Há um sem-número de regras heurísticas que devem ser utilizadas em conjunto com uma incongruência para que se possa esperar que ela se torne em humor, e que de alguma forma reduzem a subjectividade daquilo que tem graça. O humor é social e humano: as expectativas de congruência que criamos dizem respeito à nossa vivência conjunta. Acontece também que os humanos tendem a rir-se das mesmas coisas, com variações atribuíveis ao contexto cultural. Tanto Freud como Bergson fazem um elenco de várias e elaboradas técnicas humorísticas, com nomes sonantes como “bola de neve”. Não será talvez produtivo entrar pela especificidade de cada uma: mas bastará dizer que a criação de humor se baseia numa espécie de conhecimento intuitivo destas regras que permitem criar um set-up propício para o riso, com base em incongruências, gestão de expectativas, distância emocional, e ritmo, entre outras coisas.

No humor há no geral uma aura de ausência de solenidade e de falta de gravidade que leva autores como Freud a apontar a sua origem a uma necessidade de brincar, tal como a de uma criança, que ao longo do tempo vai sendo oprimida pelos mecanismos sofisticados da vida em sociedade (Freud, 2002: 125). Chegamos a uma determinada altura na nossa vida em que fazer barulhos de pum passa a ser aborrecido e inapropriado. Há quem se acomode, e há quem arranje maneira.

Imagens da British Library. Circa 1855. Autor: HOOD, Thomas – the Elder

Bibliografia:

Aristotle (2004), Nicomachean Ethics, Cambridge: Cambridge University Press

Bergson, Henri (1969), Le Rire: Essai sur la signification du comique, Paris: Presses Universitaires de France.

Carroll, Noël (2014), Humour: A Very Short Introduction. Oxford: Oxford UP.

Freud, Sigmund (1961), “Humour”, Strachey, J. (ed.), The Standard Edition of the Complete Psychological Works of Sigmund Freud, Volume XXI, Toronto: The Hogarth Press Limited, 159-167.

Freud, Sigmund (2002), The Joke and Its Relation to the Unconscious, trans. Joyce Crick London: Penguin.

Hobbes, Thomas (1998), Leviathan, Oxford: Oxford University Press

Hutcheson, Francis (1973), “Reflections Upon Laughter”, Kivy, Peter, Francis Hutcheson: An Inquiry Concerning Beauty, Order, Harmony, Design, The Hague: MartinusNijhoff, 102-120.

Plato (1975), Philebus, trans. J. C. B. Gosling Oxford: Oxford University Press.

Schopenhauer, Arthur (1908), “On the Vanity of Existence”, Bailey Saunders (ed.) Studies in Pessimism, London: Swan Sonnenschein& Co., Lim, 33-39.

Schopenhauer, Arthur (1891), The World as Will and Idea, translated by R. B. Haldane, M.A, John Kemp, M.A, vol. II,  London: Kegan Paul, Trench Trübner& Co. Ltd

*Hugo Simões é licenciado em Direito pela Universidade de Lisboa e concluiu o Mestrado em Estudos de Cultura da Universidade Católica de Lisboa com a tese Humour is a Laughing Matter: the Existential Humour of Saki, Life of Brian and the Hitchhiker’s Guide to the Galaxy. É co-criador e actor na série A Bola Maciça (SIC Radical) e os seus poemas podem ser lidos em revistas como The Río Grande Review, Across the Margin e Whistling Shade.

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