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Erskine Caldwell. O diabo passou para beber e dançar!

Foi um caso de amor desde o início. Descobri este livrinho numa livraria alfarrabista maravilhosa, a Fyodor, um pequeno segredo numa escadaria do Chiado. “O Pregador”, de Erskine Caldwell… Resgatei-o da prateleira por dois euros e meio. Foi com certeza amado por quem o teve antes. Fazia lembrar um pequeno carro clássico, modelo americano, de chassis envernizado, protegido da tormenta num celeiro, amado e resguardado. Vinha encadernado em plástico.

E tudo começava na capa. A ficha técnica diz que foi feita por um tal de “Izquierdo”. Está impressa numa superfície violeta, em têxtil. E tem tudo. Umas barras verdes em contraste violento com o fundo, umas discretas letrinhas com o nome e o autor. E a silhueta de um olhar. Sombrio, misterioso. Sabemos que é um romance, e que o diabo se passeia pelas suas páginas.

E depois vem o Sul dos Estados Unidos. O Sul antigo. A terra ampla e resistente, trabalhada com suor e sangue, porque não há outra forma. No horizonte da estrada que rasga a povoação levanta-se uma nuvem de pó, começa a vislumbrar-se a chegada do pregador. E a chegada diz-nos muito: um carro nas últimas, a guinar em esforço, em vertigem, em velocidade.


O diabo não faz cerimónias. Por vezes veste-se de pregador e varre planícies de poucos homens. Vem falar-nos da salvação, porque sabe que no seu reverso mora o pecado. E alimenta-se dos simples, do seu medo, do seu tédio. E nas suas palavras todos se encontram, todos se reflectem. E todos os corpos entram em convulsão.

E com ele traz um nuvem de luxúria, de saque, de orgia, de violência. Quando parte, de madrugada, leva consigo uma parte de todos os que com ele se cruzaram.

É assim a escrita de Caldwell, um pedaço de planície batido só pelo sol, ao ritmo de uma melodia de banjo, mas por vezes varrido pelo mal, como um furacão. É preto no branco, fio de navalha na jugular excitada, a mesma febre do antigo testamento. O bem e o mal. O tédio e o frémito.

O diabo é esguio e veloz. Tão depressa aparece como parte. Anda à solta pelos campos do Sul, de vila em vila. Aparece às vezes num livro de Caldwell.

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