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Boca do Rio: Um porto romano entre dois mares

Por João Pedro Bernardes *

Quando em 1 de Novembro de 1755 o maremoto que se seguiu ao destrutivo terramoto entrou pelo vale da ribeira de Budens, que então formava uma grande laguna, pôs a descoberto na sua margem direita imponentes ruínas romanas que se escondiam sob as dunas. Apesar das areias terem voltado a cobrir quase tudo o que o maremoto expôs, ficou na tradição e memória popular que naquele local existia uma grande cidade enterrada. Contudo as ruínas então descobertas na frente marítima da atual praia da Boca do Rio, passam a ser fustigadas periodicamente pelas marés e tempestades marítimas.

Em finais do século XIX, quando os primeiros arqueólogos ali fizeram escavações, já referiam a destruição de mosaicos e de muitas estruturas provocadas pelas marés vivas. Recolheram então vários objetos, mosaicos e estuques pintados que revestiam compartimentos ricamente decorados da casa do proprietário desta villa marítima romana. Pelas descrições e plantas que então se fizeram fica-se com a ideia que esta casa teria uma fachada com varandim voltado ao mar que se prolongava em corredor até umas termas, também elas decoradas com pavimentos de mosaico e paredes pintadas.

Mosaico romano removido em 2010

Por detrás desta extensa casa na frente marítima, na margem direita da laguna, estendia-se um conjunto de edifícios que albergavam tanques de diferentes tamanhos onde se maceravam grandes quantidades de peixe com sal e ervas. Desta mistela saíam molhos e pastas que eram envasados em ânforas e exportadas para todo o Império Romano. Esta área produtiva, mais longe do mar e coberta pelas dunas, continuava bem protegida, ao contrário da tal frente marítima que o mar ia fustigando invernia após invernia.

Entrada de uma das fábricas de salga de peixe romanas da Boca do Rio (projecto BRIO)

Como em 2010 a maré já estava a destruir o mosaico do corredor que ligava a casa às termas, eu e os meus estudantes da Universidade do Algarve fizemos uma escavação de emergência para expormos a totalidade do mosaico que viria a ser extraído para lugar seguro. Mas esta intervenção traria algumas surpresas; sobre o mosaico estava caída parte da parede sul em taipa das termas com os respetivos revestimentos a estuque onde se pintaram alguns rostos de algumas pessoas que ali habitaram. Seriam gente simples, certamente de condição servil, a avaliar pelas vestes que traziam, em contraste com os ricos arreios de um cavalo, provável montada do senhor da villa.

Do lado exterior desta parede pintada, nalguns compartimentos em terra batida já parcialmente destruídos pelo mar, poiso desta gente servil, detetámos uma cozinha com a sua lareira e alguns recipientes enterrados no solo, um dos quais ainda continha restos da tal mistela de peixe. As análises do ADN aos restos piscícolas revelaram a presença de 7 espécies marinhas na constituição daquele molho ou pasta que, na cozinha romana, tinha a função que o sal ou os caldos knorr  têm hoje nas nossas cozinhas.

A algumas dezenas de metros dali, para o lado poente encostado à falésia onde começava o estuário da ribeira Budens, os barcos entravam na laguna para descarregarem nas fábricas por trás da grande casa o produto da faina do dia.

Do lado oposto àquela falésia, onde o sol se põe, ficava a necrópole desta comunidade piscatória sobre uma colina que mirava a infinitude do Oceano e a atividade na praia. Em 2016 escavámos 9 sepulturas que datavam entre meados do século III e o século IV.  Só uma, a mais antiga, era de incineração e agregava em seu torno um conjunto de sepulturas de inumação. Neste espaço familiar de enterramento, que assistiu à passagem do ritual de cremação para o de inumação, apenas um esqueleto resistiu à agressividade da caliça do subsolo. Pertencia a uma mulher de cerca de 40 anos que, apesar da idade, já apresentava um conjunto de mal formações nos ossos, nomeadamente ao nível das vertebras, resultantes do trabalho árduo a que estava sujeita. Não longe, uma sepultura, datada do século IV pelo frasco de vidro que continha, tinha sido aberta na rocha caliça, à maneira de sarcófago. O inumado, de que restou apenas parte do crânio, tinha sido colocado em caixa de madeira de que sobraram os pregos cuja oxidação preservou a madeira que os envolvia; outro inumado, de que que chegou até nós pouco mais do que partes do crânio, foi envolvido numa túnica e depositado diretamente na cova; restos do tecido da túnica preservaram-se na face oxidada de uma moeda colocada simbolicamente sobre o corpo para pagar a viagem para o além!

Núcleo familiar das sepulturas

Esta gente, mais modesta, trabalhava certamente nas fábricas e salinas situadas nas margens da lagoa que se estendia pelo vale da ribeira de Budens. A partir de 2017, em colaboração com uma equipa da Universidade alemã de Marburg, iniciámos um projecto intitulado “Boca do Rio: um sítio pesqueiro entre dois mares”, com o intuito de investigar a frente marinha e o reaproveitamento que as armações de pesca, implantadas sucessivamente no local nos séculos XVI e XVII, fizeram das estruturas romanas; mas também investigar ainda a parte industrial do sítio romano procurando entender a articulação desta área com a opulenta residência na frente marítima e todo o conjunto com o mar e a laguna.

Porto romano de Boca do Rio

O projecto iniciou-se com prospeções geofísicas, quer medindo a sensibilidade magnética dos solos (geomagnetismo), a resistência destes à passagem de uma corrente elétrica (resistivímetro) quer ainda o comportamento dos mesmos a ondas de radar de penetração no terreno (geo-radar). Havendo estruturas em pedra ou tijolo enterradas no solo arenoso, esperava-se que as medições efetuadas por aqueles métodos apresentassem anomalias. Um software que converte os valores numéricos das medições em pixels permite ver um esboço das estruturas enterradas, como se de uma radiografia ao solo se tratasse. Os resultados das escavações que se seguiram demonstraram que os homens dos séculos XVI e XVIII utilizaram estruturas dos edifícios romanos dos séculos II e III, reaproveitando sobretudo as sólidas fundações construídas nas dunas, para edificaram os seus edifícios de apoio às armações de pesca. O sítio da Boca do Rio, apresentava-se assim como um sítio pesqueiro ocupado sucessivamente ao longo de 2000 anos.

Mas as escavações viriam ainda a revelar várias fábricas para processamento de preparados piscícolas, uma delas com tanques com capacidade para 27 mil litros cada e, já em 2018, um porto com um cais de mais de 40 metros, bem construído em silharia, que permitia descarregar diretamente o pescado nos tanques das fábricas. As areias que cobriam todas estas estruturas permitiram que chegassem até nós com um nível de preservação pouco usual, ao ponto que em dois dos tanques ainda recolhemos restos de preparados de peixe que pelos ossos e escamas parecem ser sobretudo de sardinha e cavala. Parece que esta fábrica teria sido abandonada lá para finais do século IV, tendo servido um dos tanques de lixeira, onde foram depositados pratos, partidos mas completos, importados da atual Tunísia. Na primeira metade do século V o sítio é abandonado.

Cisterna romana de Boca do Rio

Os trabalhos prosseguem e nas próximas campanhas, em parceria com os nossos colegas alemães, vamos escavar um forno, já parcialmente identificado, que pode ter sido a origem das enormes quantidades de cal necessária à construção de todos estes edifícios. Vamos também tentar perceber as termas romanas sobre as quais se implantaram dois barracões no século XVIII e tentar entender toda a dinâmica de um dos sítios romanos pesqueiros mais bem preservados do Ocidente do Império Romano

*João Pedro Bernardes – Responsável pelo Projecto – Doutorado em Arqueologia pela Universidade de Coimbra, é professor na Universidade do Algarve, nos cursos de licenciatura de Património Cultural e Arqueologia e ainda em vários cursos de mestrado. Tem participado e liderado diversos projetos de investigação nacionais e internacionais, sobretudo em Arqueologia romana, e é autor de diversos textos e publicações no âmbito da sua área científica.

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