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Bibliomania: até onde vai o nosso amor aos livros?

Muitos amantes de livros sentem dificuldade em desfazer-se de um único livro da sua colecção e amam as suas bibliotecas particulares.

Um livro é uma viagem, um conjunto de emoções. Traz memórias que tomamos como nossas e é parte do nosso património emocional. Os livros que nos rodeiam são parte de quem somos, de quem nos tornámos. A nossa biblioteca particular diz muito sobre nós próprios, sobre o que povoa o nosso imaginário. É talvez o espelho mais fiel da nossa alma. É natural o amor que nutrimos por eles. Mas há outras facetas do amor pelos livros. Há quem os veja como tesouros, e alguns são isso mesmo: tesouros quase impossíveis de encontrar, valiosos em termos materiais, históricos, literários, e por uma ou outra característica editorial ou biográfica.

Para os encontrar é necessária disponibilidade financeira, alguma dose de persistência e até alguma obsessão. E em torno de tudo isto geram-se bibliotecas particulares que são material de mitos e lendas. Há coleccionadores que são, em si, autênticas personagens dignas de ficção. E há uma indústria vibrante, alimentada por verdadeiros caçadores de tesouros profissionais. Neste texto trazemos-lhe alguns retratos deste universo.

Os grandes coleccionadores. Amantes de livros famosos e Bibliotecas particulares de sonho

Começamos pelos coleccionadores famosos. Aqueles cujo nome reconhecemos publicamente. Se as bibliotecas particulares são espelhos da alma, há também uma dimensão voyuerista na nossa curiosidade em conhecer as bibliotecas dos outros. Se estivermos a falar de personagens famosas, melhor ainda. É apenas humano.

Num artigo para a “Literary Hub”, Emily Temple começa por enumerar alguns nomes que não constam do top 10, mas que são parte integrante do nosso imaginário. Marylin Monroe, por exemplo, tinha uma biblioteca de cerca de 400 livros. A colecção de Charles Darwin tinha cerca de 1500 volumes, tal como a colecção de Oprah Winfrey. Mas quem compõe este top 10, segundo Emily Temple?

Karl Laggerfeld aparece no primeiro lugar da lista, com uma colecção pessoal de 300 000 livros. Leu bem, 300 000 livros em inglês, francês ou alemão. Uma colecção de tais proporções que o estilista se vê forçado a dispor os seus livros deitados, para economizar espaço. George Lucas construiu uma biblioteca de 27 000 volumes, que eventualmente acabou por alojar no seu famoso rancho. A biblioteca não está aberta ao público, mas foi consultada por leitores tão ilustres como Alfred Hitchcock ou Clint Eastwood. Ernest Hemingway levava uma pequena biblioteca consigo para todos os seus destinos. Comprava cerca de 200 novos livros por ano, e na altura da sua morte tinha constituído uma biblioteca de 9 000 livros. Harry Houdini possuía uma biblioteca de 5 000 livros, sobre magia, teatro e espiritualidades, que acabou por doar à Biblioteca do Congresso.

O actor Johnny Deppy é também muitas vezes referido como um intenso amante de livros. Alguns dos filmes que protagonizou foram projectos inspirados pelos seus gostos literários, tal como “Fear and Loathing in Las Vegas” e “The Rum Diary”, baseados em obras de Hunter S. Thompson, de quem era amigo pessoal. O gosto de Depp pela Beat Generation levou-o a adquirir correspondência e a própria máquina de escrever de Jack Kerouac. É também um coleccionador de Dylan Thomas e Rimbaud.

Entre as bibliotecas privadas de maior destaque, a “Business Insider”, num artigo de Leanna Garfield, opta por destacar uma vez mais a de Karl Lagerfeld, instalada numa divisão de dois patamares comunicantes, repleta de livros do chão ao tecto, que pela disposição horizontal dos livros oferece uma impressão visual única. A biblioteca do professor universitário Richard Macksey é também referida como uma das maiores bibliotecas privadas dos Estados Unidos da América, e é constituída por cerca de 70 000 livros e manuscritos. Outra biblioteca em destaque é a de Alberto Manguel, que construiu uma colecção de cerca de 35 000 livros, e chegou a instalá-la num antigo presbitério, no Loire, França. O escritor fez dela tema de uma das suas mais recentes obras, “A Biblioteca à noite” (traduzida para português, edição da Tinta da China), onde reflecte precisamente sobre o papel das bibliotecas, das bibliotecas de cada um de nós.

Muitas vezes a biblioteca particular é também um sinal de distinção, de estatuto, razão pela qual existe quem se dedique a compor as bibliotecas privadas de quem tem os meios materiais mas não a disponibilidade, conhecimento ou… gosto para o fazer.

Esse é o tema de um curioso artigo que descobrimos, de James Bartlett, para a “BBC News”, e que conta a história de Kinsey Marable, curador literário contratado para construir as bibliotecas de outros.

Os seus clientes são muitas vezes arquitectos ou decoradores de interiores, que lhe encomendam a constituição de bibliotecas raras, acervos reunidos de raiz para clientes abastados que as exibem posteriormente aos seus convidados como forma de ostentação. Uma biblioteca particular de bom gosto, na sua opinião, deve incluir livros de autoras femininas conceituadas, livros de belas artes, arquitectura oitocentista e primeiras edições de autores galardoados com o Prémio Nobel.

Uma colecção privada ideal deve aliar um sentido de conteúdo, mas também um forte sentido visual. Para constituir estas bibliotecas, Kinsey viaja por todo o mundo, conhece pessoalmente os principais alfarrabistas de vários países e cobra aos seus clientes não só o valor comercial dos livros mas também as suas despesas pessoais.

A Bibliomania. O que está em jogo?

A Bibliomania, ou seja o desejo quase compulsivo de reunir livros, chegou mesmo a ser temida como uma desordem psicológica, desde que se começou a referir o termo, nos inícios do século XIX, na Europa. A publicação “Atlas Obscura”, num texto de Lauren Young, traz-nos a história do Dr. Alois Pichler, bibliófilo alemão consagrado ao ponto de ter sido em 1869 nomeado bibliotecário-mor de São Petersburgo. Mais tarde, tendo-se descoberto que roubara mais de 4 500 livros da Biblioteca Pública, o seu advogado alegou que Pichler sofria de uma desordem psicológica chamada “bibliomania”, cujos sintomas eram a obsessão por livros raros, de primeiras edições, tamanhos e processos de manufactura peculiares. Esta estratégia de defesa falhou e o bibliotecário acabou exilado na Sibéria.

A procura de livros raros atingiu no século XIX um carácter absolutamente compulsivo, com diversos de casos de neurose associados, e muitos outros em que os coleccionadores acabavam a desbaratar autênticas fortunas familiares nas suas demandas por livros raros. Um coleccionador inglês do século XIX, Richard Heber, chegou a adquirir oito casas só para albergar as centenas de milhares de livros da sua colecção pessoal. Naturalmente, o carácter médico desta pseudo-condição psicológica, a Bibliomania, começou posteriormente a ser relativizado, o que não implica que não possa haver na procura e acumulação excessiva de livros uma vertente obsessiva e compulsiva.

Para o “The Guardian”, a escritora Lorraine Berry escreveu inclusivamente que numa era como a nossa, de predomínio digital, a obsessão em reunir livros pode até partir de uma intenção inconsciente de salvar o próprio paradigma dos livros, supostamente em risco, como se quiséssemos cristalizar uma etapa civilizacional que amamos e julgamos ameaçada. Um exercício de amor, protecção e nostalgia, em simultâneo.

Mas o que faz realmente um bom coleccionador de livros? Segundo Michael Parsons, para o “The Irish Times”, a era da internet sobrepôs-se gradualmente ao encanto romântico de encontrar livros numa procura, diga-se, mais física, de aventura, de viagem, de deslocação, e impôs um modelo mais mercantilista, onde a emoção da transacção supera a da própria procura. Continua a ser fundamental cultivar boas relações com bons agentes e conhecedores.

As primeiras edições de clássicos continuam a ser valiosas, mas tal como acontece na arte em geral, o preço que pagamos por um livro raro estabelece com mais probabilidade o que o comprador está disposto a oferecer do que aquilo que o objecto vale em termos de solidez comercial. Os preços são muitas vezes ditados por uma especulação emocional. Talvez por isso, muitos dos agentes literários, leiloeiros e alfarrabistas ouvidos para a composição desse artigo defendem que um livro raro nunca deve ser adquirido só pela vertente comercial, mas com um sentido de amor e apreciação genuínos pelo objecto que estamos a adquirir. Essa é a única forma de, pelo menos perante nós próprios, um livro nunca perder o seu valor. Uma inclinação coleccionista pode ser ditada por um gosto, sempre subjectivo e pessoal, por uma época específica da história, por uma estética, por uma corrente literária ou por qualquer outro fetiche filosófico ou ideológico, necessariamente pertencente a um imaginário pessoal.

Consoante o coleccionador, pode haver uma predisposição para adquirir primeiras edições, edições limitadas, as próprias provas tipográficas ou a primeira edição em paperback. A obsessão pelas primeiras edições, especificamente, traduz um desejo de contacto com as primeiras ideias de um autor, com o risco primordial do próprio editor, com o primeiro espanto e emoção dos leitores, com o impacto social e estético original de um livro. Conservar um livro de uma primeira edição talvez nasça do nosso desejo inconsciente de possuir e cristalizar uma porção do tempo. De controlar e de lhe forçar a paragem. De um tempo em que soubemos ser felizes ou de um tempo que queríamos ter vivido. Um livro, em última análise, é uma máquina do tempo.

Histórias de livros raros e descobertas de tesouros

Entre os já conhecidos clássicos de Shakespeare, ou da Bíblia de Gutenberg, ou do “Codex de Leicester”, de Leonardo da Vinci, figura nalgumas listas dos livros mais valiosos do mundo uma obra de J. K. Rowlling, “The Tales of Beedle the Bard”, do qual só foram feitos, pela própria autora, ilustrados e manuscritos, sete cópias.

Da lista das mais valiosas primeiras edições de livros modernos constam, entre outros, “O Arco-Íris da gravidade” de Thomas Pynchon; “As vinhas da ira” de Steinbeck; “Mil novecentos e oitenta e quatro” de Orwell; ou “A sangue-frio” de Truman Capote. Uma primeira edição de “Uma agulha no palheiro” de J. D. salinger pode custar cerca de 50 000€.

Como leitores e amantes de livros que somos, a viver uma eterna infância, em permanente espanto, também adoramos histórias de caças ao tesouro. E alguns livros raros foram descobertos como verdadeiros tesouros. Histórias de livros encontrados quase por acaso em feiras de usados, no fundo de garagens ou sótãos poeirentos, ou no meio de outros livros, apenas antigos, empilhados de forma anónima em livrarias alfarrabistas.

Histórias de autênticos heróis anónimos como Brian Cassidy, que descobriu por acaso um livro anotado pelo próprio Kerouac num lote de livros usados; ou a de Susan Benne, que numa venda de garagem reconheceu num livro ilustrações não creditadas do início de carreira de Maurice Sendak; ou a de Clark Bought, que adquiriu um livro do século XVI, que pertenceu à Biblioteca do Vaticano, numa Feira da Ladra, por alguns cêntimos.

Estas e outras histórias podem ser lidas no livro “Rare Books Uncovered: True Tales of Fantastic Finds”, de Rebecca Rego Barry. E continuamos a acreditar que podem acontecer, porque efectivamente podem.

Os guardiões e vendedores de tesouros. Os alfarrabistas e os seus segredos

Mas quem detém as chaves deste mundo misterioso? Quem são os verdadeiros guardiões de tesouros?

Os alfarrabistas movimentam-se ainda neste mundo onde transitam verdadeiros tesouros, e conhecem os segredos das suas descobertas, das suas origens, e do seu trânsito para as bibliotecas privadas de quem pode adquirir os objectos dos seus desejos.

Quais os seus próprios segredos?

Num artigo para a “Mental Floss”, Rebecca Romney falou com diversos alfarrabistas que, à vez, alimentam e desmistificam o nosso fascínio e a nossa curiosidade. E tanto ficamos a saber que há tesouros em todo o lado, como o facto de nem tudo ser realmente um tesouro.

Fomos descobrir. Não é necessário muito dinheiro para ser um coleccionador, mas apenas saber-se especificamente o que se procura e gerir expectativas. Para ser um objecto comercialmente valioso, um livro deve conter todas as páginas originais, e se for caso, a sua “sleeve” original, a capa exterior.

No “The Guardian” descobrimos, num artigo de Mark Tran, a história de Ed Maggs, alfarrabista que sonhou ser músico de reggae, mas que acabou por se apaixonar por este trabalho. Como leitor, Maggs diz já ter vivido tantas descobertas que quase se sente frustrado por não poder contá-las na qualidade de romancista. A dada altura dá-nos uma pista importante para o que é realmente importante na profissão de alfarrabista: distinguir preço de valor, ou seja, admitindo que uma das principais razões que nos pode dar gosto em procurar ou possuir um livro antigo pode muito bem não ser a vertente comercial, mas sim a emocional.

Numa entrevista ao “Observador”, Nuno Gonçalves, da casa de leilões de livros “Nova Eclética”, diz que o que faz um bom alfarrabista é o trabalho de investigação que acrescenta valor a cada livro, onde se descobre a história e o percurso de cada volume.

Todos são unânimes em concordar que os coleccionadores não são apenas pessoas de extraordinária capacidade financeira, e que os gostos variam mesmo dentro de cada faixa etária, por diferentes épocas da história, suportes, géneros e autores.

O que dá valor a cada livro que temos ou queremos ter? Em última análise, o valor depende de cada um de nós, leitores. Senhores dos nossos gostos, dos nossos fascínios, sonhos e ilusões.

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