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A Rádio Baixa quer dar música e vida à baixa de Coimbra

A Rádio Baixa é uma rádio numa loja em Coimbra, que transmite os seus programas num stream de video para a internet. É um projecto comunitário e sem fins lucrativos que tem como objectivo ser um ponto de encontro para partilhar e ouvir música. As pessoas podem visitar-nos fisicamente na loja, ou através do stream de vídeo ver e comentar os programas que emitimos semanalmente.

A ideia surgiu quando o Sérgio, um dos fundadores, me desafiou. Perguntou-me se eu queria criar uma rádio nova em Coimbra. Pensei que estava maluco. Ele está sempre cheio de ideias, mas nunca imaginei que era esta que ia para a frente. Disse que não iria colaborar a tempo inteiro, mas no início ajudei a definir o que era preciso em termos técnicos para o fazer. Entretanto fazemos uma reunião, com o Daniel e com a Joana – que tinha inicialmente mandado a piada ao Sérgio, sobre abrir uma rádio.

De repente a ideia estava a compor-se e eu estava bem mais envolvido do que contava!

A ideia da rádio com o formato de stream de vídeo não é nova, foi inspirada em rádios semelhantes espalhadas pelo mundo, como a Red Light Radio em Amsterdão e a Lot Radio em Nova Iorque. Além disso, também gostamos muito do projecto da Rádio Quântica em Lisboa, mas não encontrámos nenhuma que fizesse stream de vídeo regular em Portugal, e muito menos em Coimbra.

Depois da primeira reunião começámos a falar mais regularmente, a completar a lista do material que era necessário e até a dar voltas na baixa de Coimbra, a sondar possíveis locais para o fazer.

Começámos então a falar com mais amigos, para validar a ideia, mas também para entender se estávamos no bom caminho para o fazer e se podiam ajudar. Assim, falei com o Alexandre, que ajudou a programar a matiné na Casa das Artes. O Alexandre foi um reforço positivo: gostava bastante da ideia e sugeriu que começássemos a transmitir as matinés.

Um pouco antes de transmitirmos a primeira matiné começámos a criar as páginas de facebook, instagram e por aí – e quando fazemos a primeira transmissão, um pouco como sem querer, começa muito mais gente do que imaginávamos a fazer like na página e a seguir-nos.

Além de espectacular, esta reacção natural e dinâmica também aumentou a pressão para o que estávamos a pensar fazer, pois ainda não tínhamos loja nem material. Isto intensificou a busca por uma loja que fosse do nosso agrado, porque as mais económicas eram em ruas escuras e menos simpáticas, e as que gostávamos tinham rendas de 1000 ou até 1600€!!! Ao mesmo tempo íamos procurando o material para os djs usarem e fomos chateando algumas lojas e procurando no OLX bons negócios.

De repente – e não me lembro bem se a ordem é exactamente esta – definimos uma data para inaugurar a rádio, para nos forçar a escolher uma loja e a arranjar o material que precisávamos. Essa data deu-nos duas ou três semanas para resolver tudo e foi de loucos. Desesperados por arranjar loja, a falar com senhorios sobre várias hipóteses, já estávamos decididos a escolher a mais barata que encontrámos, num lugar que nem gostávamos muito. Mas era a única solução.

Entretanto, pelos vistos, a nossa ideia já tinha andado a rondar algumas pessoas na baixa de Coimbra e o nosso senhorio actual, que aparentemente gostou da nossa ideia, liga ao Sérgio a propor que fôssemos para o espaço onde actualmente estamos. Uma loja que era apenas um sonho, de repente, tornou-se a nossa rádio.

Neste ponto começamos a perguntar a toda a gente quem sabe onde arranjar material de DJ e vamos chatear uma loja de música algumas vezes, a partilhar a nossa ideia, até que conseguimos passar da hesitação inicial e conseguimos arranjar algum material emprestado. Além disso, pedimos a amigos para fazer o design, arranjar mobília – um pai de um amigo montou a mesa de dj e três bancos em paletes – e pouco a pouco conseguimos ter o essencial para a rádio funcionar.

Até que chegámos à inauguração, a 14 de Abril [de 2018], e felizmente, apesar de tanta coisa feita tão em cima, correu tudo bem e tivemos entre 200 ou 300 pessoas a tarde toda na rádio. Foi incrível!

A nós interessa-nos que seja um projecto independente e virado para a comunidade. Isto quer dizer que, em parte, somos suportados financeiramente por pessoas individuais através de plataformas como o Patreon, ou também de outras formas, sejam no apoio logístico ou donativos espontâneos – já nos ofereceram desde sofás, bolos, plantas, material de dj, entre outras coisas! Além disso estamos a aumentar a nossa equipa com amigos que querem colaborar voluntariamente, para ajudar a manter o projecto a funcionar e a crescer dentro dos possíveis.

Paralelamente, também queremos que a rádio seja uma plataforma para dar oportunidades e visibilidade à comunidade. Queremos que a programação seja bastante abrangente em estilos musicais, mas que combine Djs e artistas com algum nome e experiência com pessoas que nunca passaram música antes. Desde que tenham gosto e interesse genuíno por música, esperamos que seja uma forma de dar espaço a pessoas que por outras vias não conseguiram mostrar o seu trabalho.

Também temos planos de outros projectos virados para a comunidade, como algumas sessões com aulas para miúdos mais novos aprenderem a meter música, mas terá de ser um passo de cada vez enquanto a nossa disponibilidade não aumentar.

A escolha da Baixa de Coimbra não foi por acaso. Tivemos oportunidade de ir para outros lugares mas felizmente insistimos em procurar um espaço nas ruas da baixa, pois a localização é uma parte muito importante da identidade da rádio.

A baixa de Coimbra, além de ser o centro da cidade e ter o seu valor histórico, está a ficar decadente, com pouca gente e muitas lojas e edifícios vazios ou abandonados. O turismo até pode ajudar um pouco, mas também faz com que muitos negócios se foquem na mesma coisa. Tudo isto nos motivou a tentar estimular a vida da baixa à nossa maneira.

Pelo facto de termos o dj virado para a montra e a música a sair pelas portas para fora, sentimos uma energia que penso que fazia falta a esta zona. Além disso, sempre quisemos que a rádio também fosse um ponto de encontro, que vamos tentando estimular, para trazer mais gente jovem à Baixa. Penso que isso está a resultar, pelo número de pessoas que já comentaram que não vinham à baixa há muito tempo.

A relação é muito interessante, penso que muita gente ficou muito feliz por irmos para a zona, pois somos uma lufada de ar fresco ali. Às vezes gosto de olhar em volta aos sábados e domingos à tarde – é quando estamos abertos e a baixa está mais morta – e pensar como era aquela rua antes de nós lá estarmos com mais uma loja fechada no nosso lugar.

O facto de tentarmos ter uma programação variada, que muitas vezes vai contra o que tipicamente se ouve nas lojas e cafés da baixa, nota-se que é um desafio para alguns dos vizinhos, em termos de adaptação. No entanto, estes  sempre nos receberam bem e apoiaram. Só conheço um vizinho que não gosta de nós, e da última vez que chamou a polícia todos os outros vizinhos vieram ter connosco a oferecer ajuda no que for preciso.

Há um pormenor que eu acho incrível e muito engraçado, que é o facto de muita gente que passa por nós perguntarem se somos da rádio DA baixa. Pode ser um erro inocente, mas às vezes gosto de pensar que é como muita gente nos vê – como uma voz ou representação da baixa.

Quando ouvi a rádio a emitir os primeiros sons, a sensação foi de incredulidade e de alívio. Alívio porque estava a funcionar, incrédulo porque aquilo de que apenas íamos falando de repente se tornou realidade. E quando isso bate ficas um pouco perdido, a pensar se aquilo está mesmo a acontecer, se tomaste uma boa decisão. Pensas: o que vamos fazer a seguir? Mas foi também espectacular receber as mensagens de tanta gente que estava a ver isso a acontecer!

Em termos concretos, a curto prazo gostávamos de ter mais patrocínios. Precisamos de uma folga para arranjar o material que se vai avariando, trocar por novo ou para outras coisas que sejam necessárias. Também gostávamos de ter alguém em part-time na rádio, pois nós os quatro fundadores e resto da malta que ajuda trabalhamos todos durante a semana, e não podemos ficar sobrecarregados com tarefas até rebentarmos.

Também vamos inaugurar uma galeria de arte agora em Abril – que esperamos que seja um espelho do que a rádio tem sido para a comunidade. Também contamos que seja mais uma motivação para chamar pessoas a entrarem na rádio e ficarem um tempo connosco.

Ao fim do dia gosto de pensar que estamos a fazer o nosso melhor para criar um momento muito interessante na cidade. Espero que a rádio dure muitos anos, mas olhando para trás parece que já passaram alguns e que já deixámos alguma marca com quem esteve connosco. Não ficam só os registos de áudio ou video, mas também todas as pessoas que conhecemos e demos a conhecer, e todas as tardes que Coimbra teve algo mais para fazer. E é isto que adorava que a rádio continue a oferecer.

Já houve muitas histórias engraçadas. Logo ainda nos primeiros tempos, estar em casa a ver um dj a tocar em vinyl, aparece uma criança nas costas dele a olhar para a agulha do disco que está a tocar e eu a pensar : “vais mexer onde não deves”! Envio mensagem para os meus amigos na rádio, mas como o vídeo vem com algum atraso, já só vejo o miúdo a fazer saltar a agulha. Adoro o vídeo de um dj, no final de um set, com os amigos a tentarem tirar da montra uma pomba que invadiu a rádio, com o som de techno no fundo, é uma imagem muito engraçada. Um turista do Chipre que passou na nossa rádio, gostou tanto que passou o fim-de-semana lá. Quando voltou para o Chipre criou uma rádio inspirada na nossa. Ter um rapaz que vem da Holanda de férias e manda mensagem se pode vir à nossa rádio tocar. Aparece no sábado na rádio com a mãe, vieram de propósito de Lisboa a Coimbra com discos acabados de comprar em segunda mão, só para fazer o programa connosco. Já nos aconteceram muitas outras coisas boas, especialmente com a quantidade de pessoas que passam, sem nunca esquecer os personagens todos de Coimbra!

As reacções de quem nos ouve têm sido muito diversas. De tudo um pouco, na verdade. Desde as pessoas que passam a pedir Kizomba, até às que ouvem música PALOP e que se lembram do que ouviam há muitos anos. Há quem venha pedir para tocar  Xutos, há quem pergunte que música está a tocar. Temos bebés que ficam a dançar techno à porta da rádio, ou adultos que se juntam na praça à nossa frente a beber e a conversar. Algumas crianças que entram e querem ver como aquilo funciona, ou malta que se cola a dois centímetros do lado de fora da montra a olhar para o dj como se fosse um manequim.

Ter pessoas do outro lado do mundo a ouvir e comentar vídeos de amigos seus, em directo, e ver a reacção deles é incrível. E só posso ficar feliz quando a rádio é uma ponte de comunicação com quem está tão longe e com quem nos visita ao vivo!

Uma coisa que também gosto de realçar, porque acho tão interessante, é o facto de a rádio funcionar durante o dia e não termos muitos (ou nenhuns) sítios para ouvir música durante o dia. Nem em cidades maiores é comum ver isso, e apesar de gostar muito da noite e ouvir música alta em bons sistemas de som, cada vez gosto mais de ter um espaço para ouvir boa música durante o dia.

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