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A história do desenho de Pessoa por Almada que era afinal um tesouro

António Trindade, alfarrabista e coleccionador de Lisboa, chama-lhe “a faísca do modernismo” e o epíteto pode muito bem ajustar-se. O desenho que descobriu cristaliza um momento muito especial na história da cultura portuguesa contemporânea: o encontro entre Fernando Pessoa e Almada Negreiros. Mas a história da descoberta deste desenho tem os contornos românticos da descoberta de um verdadeiro tesouro.

 O sobrinho-neto de Fernando Pessoa começou por procurar em António um intermediário para a venda do desenho, que era parte da famosa “arca”, o espólio deixado pelo poeta que continua a ser um fonte de mistério e surpresas. O desenho em si não era propriamente uma descoberta. Desenhado por Almada Negreiros, o retrato de Fernando Pessoa já tinha inclusivamente estado exposto na Biblioteca Nacional, no âmbito de uma exposição em torno do grupo do “Orpheu”. Mas vender o que quer que seja relativo ao universo de Fernando Pessoa não é uma tarefa tão fácil quanto possamos imaginar. Traz complicações burocráticas, uma vez que qualquer objecto relacionado com o poeta é considerado pelo estado como Tesouro Nacional. E o retrato continuava a exercer o seu estranho fascínio.

António fez uma oferta e adquiriu-o.

O que descobriu posteriormente é que se veio a revelar uma surpresa. Comparando a assinatura, e os elementos que a rodeiam, com uma outra obra de Almada, uma pintura a óleo de 1913 para a Alfaiataria Cunha, António descobriu que o desenho era de 1913, e não de 1915, como era geralmente aceite. E tal faz toda a diferença! Uma entrada do Diário de Fernando Pessoa, de 1913, acrescentou também uma pista decisiva. Escreveu o poeta nesse diário, na entrada de 1 de Março de 1913, sábado: “Fui com o Almada Negreiros ao quarto dele ver os trabalhos para a exposição; achei muito bons. Foram também, ao mesmo tempo, Castañé, Lacerda e um rapazito Joyce, primo do António Joyce. Cheguei a casa pouco depois da meia-noite.”

1913. Lisboa. Começa a desenhar-se a conspiração modernista. Almada e Pessoa conhecem-se. Têm respectivamente 20 e 25 anos. Mário de Sá-Carneiro regressa de Paris com uma estética e um estilo poéticos profundamente transformados e depurados, no auge do seu esplendor. Luís de Montalvor regressa também do Brasil. Este desenho é então de 1913, parte integrante de um conjunto de circunstâncias que, como uma tempestade perfeita, permitiram o eclodir do mais fracturante movimento artístico, estético e cultural do Portugal contemporâneo. É um documento vivo de uma conjuntura única, uma peça da história, absolutamente preciosa.

Como prova da importância desta descoberta, a própria Faculdade de Belas-Artes de Universidade de Lisboa (FBAUL) anunciou recentemente que defende a inclusão deste retrato de Fernando Pessoa, feito por Almada Negreiros, nas coleções do Estado, após ter sido apurada a sua verdadeira datação.

 Para o Dr. Fernando Rosa Dias, que integrou o painel de apresentação pública do desenho, na Faculdade de Belas Artes em Lisboa, no passado dia 21 de Fevereiro, as qualidades que tornam este desenho único não se ficam por aí. Trata-se do único desenho ao natural feito com a presença de Pessoa, num estilo absolutamente realista e numa postura de pose, perfeitamente cooperante, do poeta. Os retratos post-mortem são mais emocionais, mitificações, no propósito claro de retratar Pessoa na qualidade de um ícone, já.

 Para o Professor Fernando Cabral Martins, verdadeira referência no estudo do modernismo em Portugal, este movimento tem como verdadeira génese este encontro algo “explosivo” entre duas fúrias criadoras: falamos do momento em que Fernando Pessoa e Almada Negreiros se conheceram. Em muitos aspectos, as suas personalidades entravam em choque. Pessoa vivia sobretudo num plano interior. Almada era exuberante, eloquente, publicamente explosivo. Para Cabral Martins é absolutamente credível a ideia de que este desenho é o símbolo do início do modernismo. Pessoa e Almada têm uma tal importância e estatuto que só podem mesmo ser comparados um com o outro. É a sua dialéctica criativa que incendeia verdadeiramente o panorama literário e artístico em Portugal. E tudo começou em 1913, com este desenho enquanto testemunha e sinal de uma relação que viria a quebrar toda a percepção estética contemporânea.

 Em memória de Fernando Pessoa, Almada Negreiros escrevia em 1935, para o Diário de Lisboa, num tom emocionado: “Não tenho uma carta de Fernando Pessoa. A nossa convivência de vinte e cinco anos foi exclusivamente feita pela arte. (…) E até um dia de 1935 o poeta foi pessoalmente enterrar o corpo que o acompanhou toda a vida. Ficou só o poeta, aceso em olhos perenes de Portugal, do mundo e do futuro”. Almada sabia que há amizades, vidas inteiras, odisseias paralelas às nossas vidas que só ficam inscritas nessa espuma dos dias que cristaliza o que temos de mais sublime: a arte. Essa foi também a forma que estes dois homens, tão diferentes entre si, elegeram para expressar a sua profunda amizade e admiração mútua. Só a arte permanece, só ela tem a força de atravessar o tempo, para nos contar como tudo foi. E ficou-nos este desenho, para nos contar o momento assombroso do encontro entre dois génios amigos. Lisboa, 1913.

 António Trindade está a lutar em tribunal contra uma ordem de despejo que lhe quer retirar um espaço onde desenvolve a sua actividade de Alfarrabista e antiquário, na Rua do Alecrim. Um negócio que perdura desde há três gerações. A sua loja foi recentemente considerada “Loja com história”, o que reacende a sua esperança, mas também a de todos nós, os que ainda acreditam em tesouros.  

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