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A Arte no Horror: os cartazes da I Guerra Mundial

 A 11 de Novembro de 1918 terminava um conflito paradigmático da era moderna, que acabaria por marcar uma alteração das regras e princípios da guerra, bem como um conjunto de transformações de ordem social, mental e política no mundo, com consequências estruturais. A Primeira Guerra Mundial vitimou 9 000 000 de combatentes, revelando a face negra do progresso industrial e tecnológico alcançado pela humanidade à época.

 Por se tratar de um dos episódios mais terríveis da história moderna, surgiu a ideia de revisitar esta guerra através da leveza do grafismo dos cartazes escolhidos. A ideia é a de usar o que de mais sublime o homem é capaz de produzir, a arte, para analisar o mais tenebroso dos seus empreendimentos, a guerra. Esperamos que haja na subversão proporcionada por essa abordagem a capacidade para atingir um certo sentido de fuga ao horror, uma certa abstração do mesmo.

 Outro objectivo deste texto é sugerir algumas linhas de reflexão em torno do papel da arte na propaganda, tratando a estranheza do confronto entre os cartazes (limpos, sonhadores, optimistas) e a realidade da guerra (descarnada, desencantada, brutal). Nos cartazes aqui apresentados a guerra é vendida como uma necessidade, como fonte de paz e esperança, e num certo sentido, estes cartazes poderão ser tão responsáveis pelo morticínio trazido pelo conflito como qualquer outro tipo de armamento utilizado no mesmo. A arte não sai inocente. Um dos mais famosos autores de cartazes de propaganda da Primeira Guerra Mundial, James Montgomery Flagg, sentenciava anos mais tarde, em tom de desabafo e redenção: “We sold the war to youth”.

 Os cartazes aqui apresentados são cartazes americanos, disponíveis na Biblioteca Nacional de Portugal e dessa forma representam apenas um dos lados desta contenda. Esta foi uma guerra movida pela cobiça e ganância humanas, apesar de os cartazes a terem revestido de princípios patrióticos e valorosos. Neste sentido é necessário, por um lado, sublinhar o valor artístico inegavelmente provido de beleza destes cartazes, mas por outro desmontar ou desconstruir neles o perigo concretizado pela manobra de propaganda em que consistiram.

 Os cartazes que figuram neste livro foram seleccionados de acordo com o seu virtuosismo e mérito gráfico (ou artístico), mas também pela forma eficiente e representativa com que servem o propósito de propaganda de cada um dos vectores identificados: recrutamento; angariação; patriotismo e bravura; o papel das mulheres. Fazem-se acompanhar de uma breve introdução histórica, que não tendo a pretensão de constituir uma referência historiográfica no âmbito do que foi já escrito sobre o conflito, pretende antes enquadrar o conjunto de cartazes que aqui figuram, sublinhando o seu papel no cenário mental de horror que marcou a guerra, sem cair no facilitismo de descurar o seu inegável valor artístico e estético.

A Primeira Guerra Mundial. Breve resenha histórica.

  A Primeira Guerra Mundial teve início a 28 de Julho de 1914 e prolongou-se até 11 deNovembro de 1918. Opôs os chamados “Países da Entente” (França; Reino Unido; Rússia; Itália; Estados Unidos; Portugal…), com cerca de 43 000 000 de combatentes, aos “Impérios Centrais” (Alemanha; Império Austro-Húngaro; ImpérioOtomano; Bulgária…), que contavam nas suas fileiras com cerca de 25 000 000 de soldados. Morreram neste conflito mais de 9 000 000 de combatentes. “Longa, dolorosa, mortífera, a Grande Guerra viu matarem-se entre si milhões de homens que, ainda na véspera, juravam guerra à guerra”.[1]

 Esta guerra foi a consequência directa das tensões imperialistas das nações industrialmente desenvolvidas, e dos diversos conflitos em torno do expansionismo colonial. Teve como leitmotiv o assassinato do Arquiduque Franz Ferdinand, herdeiro do trono Austro-Húngaro. “Naquele dia começaram os tempos de uma Europa fraticida”.[2]

 Este conflito ficaria gravado na criação literária através de obras como “O fogo”, de Henri Barbusse; “A oeste nada de novo”, de Erich Maria Remarque; “Tempestades de aço”, de Ernest Jünger; “Undertones of war”, de Edmund Blunden; ou “Goodbye to all that”, de Robert Graves.

  Os alemães, unidos em torno de Guilherme II, encararam a guerra como uma luta pela sobrevivência, cercados do Norte ao Mediterrâneo, e até ao Próximo Oriente. Até as suas classes operárias cerravam fileiras, por verem na Rússia czarista uma ameaça à sua condição.

Os Estados Unidos da América envolveram-se no conflito no sentido de se afirmarem como principal potência económica mundial, na condição de exportadores e credores. O comércio que empreendiam com França e Inglaterra era fundamental para a sua economia. Em três anos de guerra as suas exportações triplicaram, e na condição de credores tiveram que se certificar que a saúde económica dos “Países da Entente” lhes permitiria saldar as dívidas e perpetuar o comércio. A sua entrada na guerra deve-se em grande parte a uma necessidade de reagir ao bloqueio de transportes e comunicações, por parte dos submarinos alemães. Entram na guerra em 1917, por pressão do seu sector financeiro. “Por fim, essa ajuda exterior assinalou o declínio da Europa, com consequências infinitamente perduráveis”.[3]

 A posição de Itália é dúbia: mantém uma guerra aduaneira com França, mas acaba por se juntar aos “Países da Entente”, por reivindicar territórios ocupados pelo Império Austro-Húngaro.

Todos esperavam uma guerra de curta duração. Mas “a guerra exigia das nações o impossível”.[4] Foi uma guerra de trincheiras lamacentas, de bombardeamentos, de avanços e recuos numa frente quase imutável, durante cerca de três anos, de apenas 800km’s. Trouxe consigo a fome, epidemias e novas guerras civis. Os erros de cálculo, por parte das nações, sucediam-se, e o conflito exigia sempre mais financiamento, e mais armamento, fabricado a partir de certo ponto sobretudo por mulheres.

Numa guerra que consistia num produto latente da evolução industrial e tecnológica, a noção romântica e cavaleiresca dos conflitos foi totalmente neutralizada. Do uso de algumas metralhadoras, depressa se passou à utilização de obuses, morteiros, minas, aviões e automóveis, bem como ao recurso a gases asfixiantes. As lutas de corpo-a-corpo e de baioneta alternavam com duelos de artilharia. Esta foi a guerra do arame farpado; dos sacos de terra que protegiam dos estilhaços de bombardeamentos; das balas com núcleo de aço; dos projécteis tracejantes; das minas; dos lança-chamas; das bombas de fósforo e ácido; dos obuses de fosfogénio; do iperita (gás mostarda); dos gases verdes e amarelos. “Em algumas semanas a guerra metamorfoseara-se: mudava, ao mesmo tempo, de natureza e de espírito, de objectivos e de extensão. Transformava-se na grande guerra”.[5] E os cadáveres sucediam-se, na neve, empilhados sob lonas, mordiscados por ratazanas, alheios aos gritos constantes das vítimas de mutilação.

 O fim da guerra implicou o desmantelamento dos Impérios Austro-Húngaro e Otomano, bem como uma significativa perda de território por parte da Alemanha. As feridas e humilhações resultantes da guerra estarão na origem dos regimes ditatoriais cuja retórica e doutrina proporcionam o eclodir da II Guerra Mundial. No fim, “para milhões de homens, a guerra era a grande ilusão, a loucura criminosa dos monarcas e dos generais”.[6] Só a Itália contava com 800 000 mortos, a título de exemplo. A Europa sofria um decréscimo populacional esmagador, que ditava classes vazias. Ficava um panorama de devastação, crises monetárias, subnutrição e pneumónica.

 A 28 de Junho de 1919 assinava-se o Tratado de Versalhes, que impunha à Alemanha a desmilitarização e a cedência à França da região da Alsácia-Lorena, bem como a renúncia às suas colónias. A experiência do conflito deixava marcas estruturantes também ao nível doutrinário e das mentalidades: “numa sociedade até então bem regulamentada, respeitadora das normas tradicionais de inspiração judaico-cristã(…),desenvolveu-se depois da I Guerra Mundial uma vida intelectual em ruptura com a tradição”.[7]

A participação de Portugal na guerra

Desde a sua implantação que a jovem República portuguesa procurava prestígio e reconhecimento, vendo na participação na guerra, do lado dos “Países da Entente” uma forma directa de obter essa legitimação. Mas o interesse de Portugal em participar no conflito visava também objectivos mais prosaicos e materialistas. O país tentava evitar a perda de colónias, e existia uma crença generalizada na vitória dos “Países da Entente”, pelo menos até 1916. Os ataques e escaramuças de alemães em Angola e Moçambique ameaçavam os domínios ultramarinos portugueses, tornando mais premente a necessidade de protecção por parte de Inglaterra: “as ambições germânicas no Ultramar português exibiam-se sem disfarces, sobretudo na imprensa, onde uma verdadeira campanha, agressiva e desdenhosa de Portugal, se vinha verificando desde havia tempo”.[8] A guerra servia igualmente de pretexto para pedir empréstimos a Inglaterra, no sentido de financiar as mais elementares despesas correntes.

 O processo de entrada na guerra foi lento e precedido de avanços e recuos, ao sabor dos conflitos da instável República. Fez-se sentir, desde logo, uma enorme relutância de alguns sectores, desconfiados de uma França de inspiração maçónica, e de uma Inglaterra cujos abusos à soberania e dignidade de Portugal haviam sido perpetrados recentemente. Ainda sem participar, Portugal sofria, em 1916, uma crise económica decorrente da guerra: faltava carvão; o pão atingia preços incomportáveis, mesmo não se fazendo já à base de trigo; faltava energia; e as comunicações com as colónias estavam cortadas.

 Quando finalmente a Inglaterra concedeu o seu aval ao auxílio português, o pânico tomara já conta do país: a moeda de prata desaparecera de circulação, e muitos procederam ao levantamento dos seus depósitos.

 Os primeiros embarques começam em Janeiro de 1917, sem grande entusiasmo visível nos soldados do CEP (Corpo Expedicionário Português). As tropas portuguesas desembarcam quase simultaneamente com a primeira divisão americana. Daí em diante, Portugal iria proceder ao envio de 55 000 soldados, em remessas mensais de 4 000. Este contingente iria garantir 12 km’s de frente, no sector inglês, na Flandres.

 A vida dos soldados portugueses nas trincheiras, e as suas misérias, foram denunciadas pelo “Rol da desonra”, panfleto anónimo posto a circular em Lisboa, no qual se dava conta da forma como muitos comandantes abandonavam os soldados à sua sorte. As trincheiras desenhavam também uma hierarquia, formando três linhas de proximidade decrescente da frente de guerra. Atrás destas linhas ficava o quartel-general: “aí repousavam os comandantes, os nunca vistos, que conheciam as trincheiras apenas por fotografias. Aqueles que os rodeavam, de automóvel às ordens, faziam a guerra em Paris, intrigando, bebendo,amando…”.[9] As tropas portuguesas, os soldados da frente, cada vez mais sujeitos a desgaste, quase nunca foram rendidas. Vasculhavam aldeias em busca de pão, constantemente sujeitos ao gás mostarda e aos bombardeamentos, vendo as suas licenças encurtar no sentido de os manter cada vez mais tempo na frente de guerra. E na frente, “sujeitas a longas temporadas, no meio da chuva, da lama e dos bombardeamentos alemães, a comida consistia em corned beef e marmelada de casca de laranja azeda”.[10] A moral dos soldados entra num crescente processo de degradação e o pânico instala-se. Sucedem-se os episódios em que oficiais que voltavam de licença acabavam por abandonar a guerra. A 4 de Abril de 1918 registam-se os primeiros motins de soldados portugueses.

  A guerra trazia dificuldades não só aos portugueses que haviam partido para combater, mas também aos que ficaram. Desde logo se fez sentir uma subida do custo de vida, acompanhada pela desvalorização da moeda. Em 1917, os funcionários públicos ganhavam 61,6 % dos salários pré-guerra. Começam então a verificar-se vagas de greves, atentados à bomba, assassinatos, e uma crescente agitação social. A fome ditava comportamentos de histeria.  A 19 de Maio de 1917, “num ambiente de pânico, deu-se por toda a cidade de Lisboa uma vaga gigantesca de assaltos, acompanhados de tumultos e tiroteios. O dia em que a periferia faminta desceu sobre a cidade para saquear as lojas da burguesia[11] resultou num balanço de cerca de 40 mortos. Por entre a fome e a inflação, havia empresários a lucrar com a guerra, e o pão era muitas vezes traficado para Espanha, onde se pagava melhor. A própria qualidade do pão degradava-se, sendo misturado com farinha de fava e aveia. Os teatros eram encerrados, para poupar no consumo de carvão. “Assim, em 1917, quarto ano de guerra, o caos não era novidade. Só as dificuldades tinham aumentado. Lisboa, depois das 23 horas, vivia às escuras, sem eléctricos, nem polícia, como na Idade Média”.[12]

 A 8 de Abrilde 1918, a 1ª Divisão de soldados portugueses começa a retirar. Mas a retirada portuguesa ficaria ainda marcada por outro episódio trágico: na madrugada de 9 de Abril, a 2ª Divisão portuguesa foi alvo de um intenso bombardeamento alemão, numa refrega que ficaria conhecida como “a batalha do rio Lys”. Faleceram no resultado directo deste ataque, imediatamente antes de poderem efectuar o seu regresso, 327 oficiais e 7098 praças, que representavam 35 % da sua divisão.

 Os últimos soldados portugueses a permanecer em cenário de guerra foram usados até ao final como mão-de-obra para abrir trincheiras. Cerca de 10 000 soldados portugueses perderam a vida na Primeira Guerra Mundial.

Relevância artística dos cartazes de propaganda da Primeira Guerra Mundial. Enquadramento no panorama histórico da sua época.

 Os cartazes de propaganda da Primeira Guerra Mundial são uma resposta estética à era industrial. Representam uma manifestação artística politicamente comprometida e com motivos ulteriores, e são, também eles, parte do esforço de guerra de cada país. O Commiteee on Public Information, americano, gastou na prossecução desta forma de propaganda 1, 5 milhões de dólares. A Primeira Guerra Mundial é tida como o conflito paradigmático da era moderna, tendo abalado os alicerces estéticos e culturais do ocidente. Estes cartazes são, despidos dos seus motivos, manifestações artísticas de um tempo e das suas tendências próprias, mas veiculam propaganda, e são criados no sentido de facultar informação e mensagens com impacto emocional.

 A propaganda veiculada pelos cartazes incide em vectores bem delimitados: legitimar as posições de cada país; proceder ao recrutamento de combatentes; vender obrigações, ou títulos de guerra; financiar o esforço de guerra. Os cartazes cumprem, antes de mais, a função de “vender” um produto, e a sua capacidade tem de ser tal, dos pontos de vista retórico, visual e emocional, que torne aceitáveis os conceitos de morte, sofrimento e destruição. Misturam talento e ingenuidade (ou hipocrisia, dirão alguns).

 Apesar das diferenças estéticas e das particularidades técnicas e de conteúdo de cada país, os cartazes de propaganda de todas as nações perseguem objectivos comuns, e usam para tal os mesmos artifícios: o uso de símbolos de conotação emocional específicos de cada país; slogans que perduram na memória; mitos e metáforas; ilustrações semióticas; desumanização do inimigo. Estes cartazes sintetizam o melhor da capacidade persuasiva da indústria da publicidade gráfica, tendo até representado a fundação de muitos dos princípios desta indústria, tal como a conhecemos hoje. Unindo beleza, impacto e exuberância cromática, actuam principalmente ao nível do subconsciente. Jogam igualmente com o espaço visual, deixando vazios, para que quem olha se possa inserir no cenário e no sentimento.

 Por detrás da estética destes cartazes esteve o modernismo, termo abrangente que representa uma vasta gama de novas sensibilidades, algumas  delas formadas décadas antes, mas cujo clamor foi acentuado pela guerra.

  A arte da propaganda associada aos cartazes, pelo seu cinismo, provocou reacções que estão na base de alguma da inspiração surrealista e expressionista.  Por vezes minimalistas, quando executados por Magda Koll, por exemplo, foram veículo de expressão de movimentos como o vorticismo, a art nouveau, o pós-impressionismo, o cubismo, ou o futurismo.

 Alguns dos ilustradores responsáveis pelos cartazes acabaram por inscrever estas obras na história da arte e do design gráfico. James Montgomery Flagg, por exemplo, mostrou-se mais tarde arrependido: “We sold the war to youth”, afirmou. Ludwig Hohlwein, entre tantos outros, foi paradigmático no carácter de inovação que imprimiu aos seus cartazes: adaptava-lhes imagens fotográficas, num estilo gráfico e intuitivo, que conjugava tons fortes em contraste, com formas em intersecção.

 Nos cartazes de propaganda provenientes de França, o trabalho era confiado a designers mais velhos e experientes, de formação clássica, que usavam noções de “alta arte”, unindo o classicismo do século XVIII ao realismo do século XIX: estes cartazes não assumem por isso uma veia avant-garde, mas exibem por outro lado muita técnica litográfica.

  Na execuçãodos seus cartazes, a Alemanha manifestava um pendor mais progressivo, empregando as correntes do expressionismo e do futurismo, e os seus autores dominavam simultaneamente o design e a arte tipográfica.

 Na Rússia, El Lissitzky criava o suprematismo no sistema geométrico visual dos cartazes, e Vladimir Mayakovsky exibia neles o virtuosismo e a precisão cáustica que o caracterizam.

 Os cartazes dos Estados Unidos distinguem-se pelo desenho tradicional, pelo lettering desenhado à mão, pela abordagem directa e imediata, pelo uso esporádico dos princípios da art nouveau, e por uma ilustração de força e impacto.

Os cartazes de guerra: valores e propaganda associada

 A profusão decartazes relativos à Primeira Guerra Mundial está associada a uma lógica de propaganda com fins muito específicos e claramente predeterminados.

 A entrada dos Estados Unidos da América na guerra, por exemplo, fez-se acompanhar de uma forte campanha de propaganda, orquestrada pelo presidente Woodrow Wilson. Desde logo, esta acção visa mentalizar o país para a necessidade de adoptar uma postura colectiva de maior agressividade, ou mesmo brutalidade, deixando cair valores como a tolerância, e mobilizando para o esforço da guerra o cidadão comum, todos os cidadãos. O caso dos Estados Unidos da América é particularmente paradigmático e canónico no que às práticas de propaganda mediante cartazes diz respeito. Nos cartazes americanos são flagrantemente visíveis as técnicas empregadas e os objectivos perseguidos, na realidade, por todas as nações neste tipo de empreendimento, inclusivamente pela Alemanha, país representativo dos “Impérios Centrais”.

 Desta forma, um cartaz americano que apela ao esmagamento do militarismo prussiano, nada apresenta de fundamentalmente diferente de um cartaz alemão que incita ao ódio contra a Grã-Bretanha ou a Rússia: ambos incidem na demonização do inimigo. Nos Estados Unidos, a propaganda foi acompanhada pela ratificação do “Espionage Act”. Num processo orquestrado por G. Creel, que contou com estrelas como Charlie Chaplin ou Irving Berlin, é possível observar como uma acção de proganda bem delineada pode, num curto espaço de tempo, incutir um sentimento de inclusão e patriotismo a muitos filhos de emigrantes judeus ou irlandeses; inundar uma nação de um entusiasmo colectivo com laivos de xenofobia; e convencer a opinião pública de que era do interesse do país participar numa guerra que deflagrara e envolvia sobretudo a Europa.

  Toda a propaganda levada a cabo por todas as nações envolvidas visa a intoxicação da opinião pública e a desmoralização do adversário.

  A guerra desenrolava-se também, e sobretudo, no espírito e na moral, principalmente quando o conflito, ao contrário de todas as previsões, se começa a revelar longo e desgastante. Manter a convicção popular e dos combatentes é parte integrante do esforço de guerra, e esse jogo prosseguia também nos cartazes.

 A mobilização dos espíritos passava pela difusão de imagens e mitos patrióticos, mediante um conjunto de técnicas que foram estudadas, por exemplo, por Harold D. Laswell. A propaganda fazia-se valer dos meios inéditos que a era da ciência e da tecnologia lhe disponibilizavam: boletins exibidos nos cinemas; jornais; cartazes; livros; filmes e canções.

  “Exuberância, misticismo e frenesim patriótico faziam-se acompanhar por um apelo ao julgamento da história e à misericórdia divina”.[13]

Tipos de cartazes:

Cartazes de recrutamento

  A propaganda associada ao recrutamento é mais frequente nos cartazes americanos do que propriamente franceses ou alemães porque, nestes casos, o envolvimento numa guerra que se desenrola no próprio território é mais natural e automático, aopasso que para a administração americana foi necessário apelar ao voluntarismo. Nos Estados Unidos da América, a propaganda foi essencial para uma mobilização interna instantânea.

  Na Europa, a guerra canalizava por si só as energias e ambições dos mais jovens, e o alistamento traduzia uma agressividade arrivista latente, e um instinto para obter uma rápida ascensão social, bem como um desejo de aventura. Em França, a percentagem de desertores é de apenas 1,5 %, e esta situação é representativa do panorama dos restantes países europeus envolvidos no conflito.

Cartazes de angariação

  No início do conflito instalara-se uma crença generalizada de que a guerra seria curta.

  Na Alemanha, a comprovar esta disposição, o secretário de estado Delbrück menosprezou, em 1914, a compra de reservas de trigo. Mais tarde, pôde observar o custo de guerra, diário, para o seu país, passar de 36 000 000 milhões de marcos (em1914) para 146 000 000 (1918).

 A propaganda ajudou os Estados Unidos da América a passar de um país mal preparado a super-potência militar: de 55 aviões disponíveis e 200 000 homens (67 000 dos quais pertencentes à Guarda Nacional), acaba por enviar 1 850 000 homens e 3 200 aviões de combate para o conflito.

 Em França, entre 1914 e 1918, as despesas excederam as receitas em 140 000 000 de francos-ouro e, no decurso da guerra, o país viu-se obrigado a intensificar a produção de material bélico, desmobilizando da frente os trabalhadores especializados.

 Em Itália, o número de operários no sector da defesa passou de 20 % para 64 %.

 Intensificava-se a relação negativa entre as necessidades crescentes de produção e financiamento, e o número de vítimas e danos. Os países iam praticando uma economia de escassez, baseada na autarcia e na redução de trocas, e a catastrófica baixa de produção na agricultura implicava situações extremas de racionamento. A aposta em carvão, aço e ferro quase triplicou nos “Países da Entente”, entre 1914 e 1917. Uma das soluções em voga para financiar o esforço de guerra era a venda de bonds (obrigações), que possibilitavam também a retirada de dinheiro de circulação, no sentido de evitar a inflação.

Cartazes de patriotismo e bravura

 Todos entraram na guerra persuadidos de que estavam a proteger o seu país de uma agressão, num acto de defesa patriótica. “Para o francês, ou o alemão, 1914-1918 foi um combate de bravos, tão claro e evidente como as cruzadas, a defesa da mãe, o combate pela fé ou a luta de classes”.[14]

 Na Rússia, o folclore eslavo alimentava o mesmo propósito de inspirar o sentimento patriótico mediante a defesa de ameaças.

 Itália via a Áustria como inimiga histórica, e a sua entrada na guerra fez-se acompanhar de uma retórica anexionista e imperialista. A sua participação no conflito era motivada por interesses prementes de ordem material, daí a necessidade de propaganda: “impôs-se a necessidade de seduzir a opinião pública para a levar a aderir à ideia de uma guerra. Os nacionalistas estavam prontos, mas o resto da população vivia com outros sonhos. Era necessário conduzir-lhes a atenção e a imprensa encarregou-se disso.”[15]

 E os cartazes de propaganda iam triunfando na sua missão de encapotar objectivos relativamente mesquinhos por entre apelos aos valores de patriotismo e bravura.

Cartazes relativos ao papel das mulheres

 Muitos destes cartazes remetem para as funções desempenhadas pelas mulheres, no período de guerra: como enfermeiras; trabalhando em refeitórios; ou mesmo como condutoras de ambulâncias, em casos pontuais e em cenário de guerra. Mas à mulher esteve também destinado o papel de mão-de-obra para fabrico de material de guerra.

 Outros cartazes traduzem o papel que se esperava das mulheres no que se refere afunções tradicionalmente atribuídas a homens, que por se encontrarem a combater não as podiam desempenhar: na produção agrícola; na criação de animais; na condução de transportes públicos; e na indústria. No tempo que durou a guerra, a França chegou a empregar 362 879 mulheres no fabrico de material de guerra, sendo que em cidades como Rouen as mulheres representaram 40 % da mão-de-obra industrial. Nos Estados Unidos da América, de 1917 para 1918, o número de mulheres operárias duplicou.

 A guerra propiciou conquistas à condição feminina e lançou as bases para o recrudescimento de movimentos feministas. Em muitos países, o direito ao voto surge após o término do conflito. O período do pós-guerra trouxe também uma mudança de comportamentos: na iniciativa e liberdade de conduzir; nos hábitos de sociabilidade e diversão; na cosmética e no vestuário.

Bibliografia:

– DREYFUS, François-Georges; MARX, Roland; POIVEDIN, Raymond; “História geral da Europa – Vol. 3 – De 1789 aos nossos dias”; Europa-América; 1996

– FERRO, Marc; “A grande guerra 1914-1918”; Lisboa: Edições 70; 2002

– GRIMBERG, Carl; “História Universal – Vol. 19 – Da primeira guerra Mundial à vitória de Roosevelt em 1932”; Europa América; 1940

– MARQUES, A. H. de Oliveira; “História de Portugal – Vol. 2”; Lisboa: Palas Editores; 1976

– MATTOSO, José (Dir.); “História de Portugal – Vol. 6 – A segunda fundação 1890-1926”;Círculo de Leitores; 1994

Recursos bibliográficos online:

  • JOHNSON, Reed; “Art forever changed by World War I – From the fiction of Hemingway to the savagely critical paintings of Otto Dix, WWI reshaped the notion of art, just as it forever altered the perception of war”. Los Angeles Times, 21/07/2012. Disponível em: http://articles.latimes.com/2012/jul/21/entertainment/la-et-cm-world-war-art-20120722

Fontes iconográficas:

  • Cartazes provenientes dos Estados Unidos da América retirados de LIBRARY OF CONGRESS – Disponível em: http://www.loc.gov/ e da BIBLIOTECA NACIONAL DE PORTUGAL – Disponível em: http://www.bnportugal.pt/



[1] FERRO, M.; “A Grande Guerra 1914-1918”; p. 13

[2] DREYFUS, F.; MARX, R.; POIVEDIN, R.; “História geral da Europa”; p. 367

[3] Idem; Idem; p. 370

[4] FERRO, M.; op. Cit.; p. 191

[5] Idem; Idem; p. 75

[6] GRIMBERG, C.; “História Universal”; p. 92

[7] DREYFUS, F.; MARX, R.; POIVEDIN, R.; op. cit.; p. 373

[8] MARQUES, A. H.; “História de Portugal”; p. 269

[9] Mattoso, J.; “História de Portugal”; p. 517

[10] Idem; idem; p. 518

[11] Ibidem; ibidem; p. 521

[12] Ibidem; ibidem; p. 521

[13] FERRO, M.; op. Cit.; p. 163

[14] Ibidem; ibidem; p. 24

[15] Ibidem; ibidem; p. 45

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