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5 mistérios de escritores desaparecidos

Escritores que desapareceram sem deixar rasto, para sempre, ou num determinado período das suas vidas. Casos em que a realidade supera a ficção.

5 – Ambrose Bierce

Nascido em 1842 no estado do Ohio, o próprio Ambrose Bierce não guardava as melhores recordações da sua própria infância.
De origens humildes, os seus dias eram passados a auxiliar os pais nas tarefas agrícolas da sua quinta, no limiar da sobrevivência.
Imerso nos poucos livros da biblioteca do pai, tornou-se um leitor auto-didacta. Quando a Guerra Civil americana eclodiu, Bierce já tinha trabalhado num jornal anti-esclavagista.


Na guerra, alistou-se no exército da União, onde travou inúmeras batalhas, tendo sofrido um grave ferimento na cabeça, do qual acabou por recuperar.
Como jornalista, fixou-se inicialmente na cidade de São Francisco, onde o seu estilo irónico, profundamente corrosivo lhe granjeou enorme popularidade.


A sua carreira de jornalista levou-o a viver três anos em Inglaterra, como aclamado colunista de publicações como o “Figaro”. De volta a São Francisco, os seus dotes de escritor depressa se começaram a manifestar na produção de short stories.


Enquanto ficcionista, os temas preferenciais da sua escrita alternaram entre memórias mais ou menos ficcionadas da Guerra Civil e temas sobrenaturais, embora com conotações psicológicas e profundamente simbólicas. O seu estilo é muitas vezes comparado ao de Edgar Allan Poe, embora mais em termos de temática e na utilização do humor negro, possuindo um estilo de escrita porventura mais directo e de maior economia de palavras.


Em 1913, já com 71 anos de idade, Bierce anunciou a sua partida para o México, sem que as suas intenções fossem inteiramente claras, num misto de vontade de entrevistar Pancho Villa e de lutar ao seu lado.
O seu desaparecimento continua a constituir um verdadeiro mistério. Uma versão afirma que morreu na batalha de Ojinaga, depois de ter morto um soldado federal. O seu corpo teria sido queimado entre centenas de outros combatentes. Existe outra versão de que tenha sobrevivido a essa batalha, tendo morrido pouco tempo depois, cativo do exército inimigo, e enterrado numa campa sem nome do cemitério de Marfa. Outra versão afirma que foi morto mais a sul do México, por um esquadrão de fuzilamento.


Há também quem sustente que partiu ainda mais para Sul, para a América do Sul, para lutar noutras revoluções. Nenhuma das mortes de Bierce foi liminarmente comprovada. A dúvida perdura, alimentando o imaginário dos leitores, e tornando-se ela própria matéria da ficção, fintando a morte e almejando a eternidade.

4 – Agatha Christie

Não nos cabe aqui traçar o percurso biográfico e literário de uma das mais prolíficas escritoras de romances policiais e de mistério da história da literatura.
Focamo-nos sim num dos episódios mais curiosos da sua vida, que permanece por explicar e que adquiriu entretanto a aura de uma lenda. Em 1926, Agatha Christie beijou a sua filha, que dormia, partiu no seu carro, um modelo Morris Cowley e desapareceu.


O seu carro foi descoberto na ribanceira de uma propriedade rural, abandonado. A enorme popularidade da autora fez atrair a atenção mediática em torno do desaparecimento. Durante onze dias as autoridades não se pouparam a esforços para descobrir o paradeiro da escritora. No decurso das investigações, o seu marido, um veterano da Primeira Guerra Mundial foi considerado suspeito e, conta-se, o próprio Sir Arthur Conan Doyle recorreu aos serviços de uma vidente na tentativa de esclarecer o mistério.


A escritora foi depois localizada numa pensão em Harrogate, quando o próprio governo de Inglaterra já mostrava sinais de desespero. Christie nunca esclareceu por completo as circunstâncias do seu desaparecimento, alegando um episódio de amnésia.
Biografias póstumas lançam a possibilidade de se ter tratado de um caso de stress motivado pela descoberta de que o seu marido tinha uma amante, pela qual estava apaixonado,planeando divorciar-se. O episódio pertence no entanto à galeria dos grandes mistérios do anedotário da literatura universal.

3 – Antoine de Saint-Exupéry

A vida do celebrado autor de “O Principezinho” continua a pertencer ao encantado território onde a realidade, de tão romântica, nos parece claramente superar a ficção.
Após uma carreira como aviador militar e comercial em França, Saint- Exupéry estava plenamente estabelecido nos Estados Unidos da América, dando palestras e escrevendo.


A libertação de França do jugo nazi era um processo em marcha e nada faria prever o regresso do autor à actividade enquanto aviador, para mais num cenário bélico. Talvez um sentido aristocrático de dever e solidariedade, que o próprio assumia como irreprimível e parte fundamental da sua identidade.
Movendo influências, Saint-Exupéry conseguiu realistar-se e juntar-se a um destacamento do exército francês que tinha sido integrado no exército aliado e que estava estabelecido na Argélia.


Por entre várias incursões mais ou menos mal sucedidas, fosse por problemas técnicos, por excessiva temeridade ou porque os instintos e capacidade de reacção de Saint-Exupéry já não eram os mesmos, conseguiu uma tolerância impaciente por parte dos seus superiores para efectuar cinco missões iniciais.


A pretexto de uma série de textos para a Life Magazine foi conseguindo permissão para novos voos de reconhecimento. Ao décimo primeiro desses voos o P-38 de Saint-Exupéry desapareceu. No ano de 2000 foram encontrados ao largo da costa de Marselha destroços do que se pensa ser o seu último avião, uma vez que não muito longe foi também encontrada uma pulseira contendo o seu nome e o nome da sua mulher.
No entanto, o seu último voo permanece um evento misterioso, que perpetua a percepção efabulada de uma vida aventureira e nada comum.

2 – Barbara Newhall Follett

Prodígio literário precoce, Barbara Newhall Follet publicou o seu primeiro êxito “The House without windows” com apenas doze anos.
Inspirada pelo meio natural que a rodeava, leitora imersa no seu próprio mundo, Barbara construiu para si um universo feérico, intensamente poético, que convenceu imediatamente o lendário editor Alfred Knopf a apostar no seu livro.


O seu primeiro grande desgosto, o facto de o seu pai ter abandonado a casa para viver com a sua amante, levou-a a uma longa viagem por mar até à Índia. Regressada aos Estados Unidos, viveu um período em São Francisco e voltou à Costa Leste, onde conheceu o homem com quem viria a casar, Nickerson Rogers.
Jornais como o Times ou o The New York Times chegaram a classificar a sua escrita como “insuportavelmente maravilhosa”.


A Grande Depressão, a crise finaceira subsequente e o facto de a própria fama e carreira terem impedido um percurso escolar convencional, obrigaram-na a desempenhar toda uma série de novos trabalhos que impediram a concretização de um percurso antes anunciado como glorioso.
Perante o súbito desmoronar do seu próprio casamento, Barbara abandonou no dia 7 de Dezembro de 1939 o seu apartamento em Brookline, Massachussets, e nunca mais foi vista.


O seu desaparecimento, aliado ao carácter imaginativo, poético e sublime da sua escrita, permanece um dos mais angustiantes mistérios de sempre do mundo literário.

1 – Rimbaud

Existem poucas vidas de autores tão marcadas pelo desassossego como a de Jean Arthur Rimbaud.
A fulgurante estrela literária francesa, tido como um dos principais precursores do simbolismo e do modernismo literário, cedo pautou a sua vida pela vertigem e pela desobediência.


A sua relação com o também poeta Verlaine, profundamente intempestiva, inspirou a escrita de uma obra absolutamente canónica, “Uma estação no inferno”.
Rimbaud escreveu toda a sua obra poética entre os dezasseis e os dezanove anos, após o que, literalmente, desapareceu.


O que sabemos hoje, de forma fragmentada, é que Rimbaud iniciou nesse ponto da sua vida um percurso de vagabundagem por África, sendo mais conhecida a sua actividade na Abissínia, onde traficou café e armas.
Muitos analistas da sua vida e obra acreditam que o desaparecimento de Rimbaud em África foi premeditado pelo próprio como uma forma de salvaguarda da sua obra, como forma de cristalizar a fúria inocente, jovem, simultaneamente criadora e destruidora, sublime e profana, profundamente paradoxal, para sempre encerrada na sua escrita.


O final da sua vida não constitui propriamente um mistério: morreu com uma forma de cancro dos ossos que evoluiu a partir de uma perna, no ano de 1891.
É o período em que decidiu diluir-se em África, abandonar-se à aventura e voluntariamente eclipsar-se de si próprio e da sua fama que continua a intrigar-nos.

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