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5 Livros para nos encantarmos pela civilização árabe

Sala dos Árabes – Palácio Nacional de Sintra – Biblioteca de Arte Gulbenkian

Não seria necessário referir o chamado “elefante na sala”, o de uma crispação aparentemente irreversível entre o que nos habituámos a designar como civilização ocidental e a civilização árabe.

É simplesmente lamentável e dramaticamente redutor que nos tenhamos habituado a conviver com uma percepção de um mosaico de países heterogéneos, compostos por diferentes povos, religiões e hábitos, reduzido à radicalização de uma minoria, habilmente aproveitada por discuros populistas, por vezes inflamada pelos meios de comunicação social e instrumentalizada em nome de agendas mais ou menos óbvias, obscuras e primárias.

Tal não poderá apagar a evidência de que a civilização árabe não só é parte do nosso código genético – a presença árabe na Península Ibérica estendeu-se até 1492 – como lhe devemos inúmeras virtudes. Escolhemos cinco livros que, esperamos, nos ajudem colectivamente a reconciliar com uma civilização que desde sempre cuidou a vertente sublime e espiritual da humanidade, através da música, da poesia, da arquitectura, tanto quanto a vertente científica, através da matemática, da astronomia e da engenharia.

5 – Mendigos e altivos – de Albert Cossery

A obra-prima de Albert Cossery, autor egípcio que escreveu em língua francesa, é um hino ao prazer e à preguiça, como forma de escárnio e oposição a um primado civilizacional que nos reduz à nossa capacidade de produzir e consumir continuamente e à nossa dependência escravizante de bens materiais.


O livro gira em torno de um conjunto de personagens que escolheu viver à margem da sociedade, na condição de mendigos, e que adquire dessa forma uma aura de dignidade e de realização que julgamos já fora do nosso alcance.


Solar, contemplativa, espiritual, a ficção de Cossery é tão prazenteira quanto venenosa. A sua lentidão militante ameaça roer os alicerces de um mundo desvairado pela sua própria vertigem.

4 – Três filhas de Eva – de Elif Shafak

Não existe praticamente nenhuma lista das principais autoras árabes contemporâneas, elaboradas pela imprensa livre tanto árabe como ocidental, que não inclua Elif Shafak.


Cronista do The Guardian, romancista, Shafak enfrenta desde 2006 a fúria conservadora e totalitária do regime turco, basicamente por tudo o que escreve e representa.


A sua escrita convoca uma permanente tensão entre o fantástico e o real, entre civilizações, entre utopia e realidade, entre passado e presente.
“Três filhas de Eva” é um vibrante romance sobre a condição de uma mulher muçulmana cuja vida simboliza o confronto de culturas, de eras, de classes, num ritmo envolvente e numa prosa rica e complexa.
Desafiadora e fracturante, como toda a boa literatura deve ser.

3 – As noites das mil e uma noites – de Nagib Mahfouz

Prémio Nobel da Literatura, Nagib Mahfouz transporta para a sua escrita a súmula maravilhosa do universo árabe e oriental. Autor prolífico, exuberante e feérico, Mahfouz é um embaixador da imaginação literária árabe.

As suas histórias convocam lendas, sonhos e fábulas, movimentando-se com elegância no limbo entre realidade e ficção, desafiando convenções e propondo utopias.

“As noites das mil e uma noites” convoca também a tradição persa, retomando a narrativa onde as tradicionais “Mil e uma noites” nos haviam deixado. Em busca da redenção humana do sultão, depois das histórias de Xerazade, uma nova sequência vertiginosa de acontecimentos, entre magia e realidade, é profundamente hábil em conseguir pelo menos fazer-nos acreditar na capacidade redentora e sublime da literatura. Tão veloz como simbólico, tão político quanto poético, tão frenético quanto comovente.

2 – As cruzadas vistas pelos árabes – de Amin Maalouf

Inicialmente jornalista no Líbano, Maalouf acabou por se mudar para Paris em 1975, na sequência de uma Guerra Civil. A sua condição de observador, pensador, cronista e romancista, de alguém que se movimenta graciosamente e com profundo entendimento entre duas civilizações, valeu-lhe o Prémio Goncourt e o reconhecimento universal.

Céptico e incisivo, a sua voz literária tem um substracto intelectual apaixonante, que cativa leitores de todo o mundo.
“As cruzadas vistas pelos árabes”, como o próprio nome indica, desconstrói a narrativa de uma colisão entre dois mundos, que só nos habituámos a conhecer à luz da nossa própria identidade e preconceitos.

Entre o melhor da literatura mas também do rigor científico, Maalouf ensina-nos que a história tem diversas dimensões e perspectivas. E, como qualquer bom livro, arranca-nos de nós próprios, e eleva-nos, expandindo-nos a consciência.

1 – O meu coração é árabe – Adalberto Alves

Autor de um vasto conjunto de obras, entre ensaio, prosa, poesia, traduções e conferências, Adalberto Alves tem sido, essencialmente desde os anos de 1980, um dos principais divulgadores da herança cultural árabe em Portugal.

Este esforço continuado valeu-lhe, em 2008, o Prémio Sharjah da UNESCO.
“O meu coração é árabe”, como o próprio reconheceu, alcançou um estatuto de clássico, tendo inspirado a escrita e o imaginário de novas gerações e povoado o imaginário de todos os leitores que se cruzaram com a obra.

Compilação de poemas de autores árabes que residiram no território que é hoje Portugal, durante a presença árabe, é um livro de silêncios, contemplações, fragmentos de beleza e amor. Que nos ensina que a poesia é a única substância pura que resiste, como espuma em cristal do tempo e da história, à virulência iludida da humanidade.

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