5 livros para conhecer os loucos anos 1920

No ano em que publicamos um livro da investigadora Cecília Vaz sobre os anos 1920 em Lisboa, vamos naturalmente focar-nos várias vezes na história, nos hábitos e na identidade de uma década que viria a definir todo o seu século e que ainda hoje nos fascina.
Os “loucos” anos 20 representaram o eclodir do modernismo e um ponto de ruptura com as estruturas e a mentalidade do passado. Fruto último das convulsões da segunda revolução industrial e da primeira guerra mundial, a década trouxe consigo novas reivindicações sociais, novas danças, novas formas de amar e um grito incontido de liberdade e desejo de felicidade comum mas também individual.

Hoje damos a conhecer cinco livros que definem com precisão os fantásticos anos de 1920.

5 – A Idade da Inocência – Edith Warthon

Edith Warthon nasceu no seio de uma família aristocrática de Nova Iorque, numa era pouco convidativa à autonomia intelectual da mulher.
A sua condição financeira permitiu-lhe viajar pela Europa e ter o tempo necessário para ler de forma ávida. Foi depois pressionada a cumprir o que na altura se esperava dela: um casamento de conveniência, onde foi profundamente infeliz.
Após um esgotamento nervoso e uma mudança para Paris, viria a divorciar-se. Entretanto tinha já desenvolvido a sua capacidade enquanto escritora.
“A Idade da Inocência”, hoje com estatuto de clássico, valeu-lhe um prémio Pulitzer e é de forma unânime considerada a sua melhor obra.
O livro gira em torno de um homem dividido no amor que sente por duas mulheres muito diferentes: uma que representa a inocência e os valores de recato que se esperam de uma jovem mulher aristocrata e uma outra, a sua prima, que desafia as convenções sociais e os preceitos da condição feminina.
O dilema deste homem é uma metáfora forte do seu próprio século: uma luta pela emancipação e um constante confronto interior entre os valores de uma sociedade em agonia e os de uma nova era em ascensão. Um retrato inesquecível de um tempo próprio, com o poder evocativo que define as grandes obras.

4 – O Adeus às armas – Ernest Hemingway

Membro da chamada “Lost Generation”, Hemingway consegue neste livro sintetizar o sentido de desilusão de toda uma geração após a Primeira Guerra Mundial.
O primeiro conflito à escala planetária resultava do desejo de diversos impérios engrandecidos pela revolução industrial e pela prática do comércio global em assegurar a supremacia e o domínio, mas representa também o lado negro de um sonho de progresso e desenvolvimento: o da ganância do homem e das nações.
O livro de Hemingway fala do fim do sonho da modernidade como resposta para a felicidade individual. Nele, um soldado desertor envolve-se numa história de amor impossível, onde os sonhos de concretização pessoal esbarram com a maré indestrutível da história comum. Epopeia de uma luta entre o individual e o colectivo, entre o amor e a guerra, entre sonho e realidade, define também com excelência o pesadelo de um século que cedo se apercebeu da impossibilidade de ser feliz.

3- A Terra Devastada – T. S. Eliot

Confrontado com a depressão e diversas crises pessoais, Eliot decidiu retirar-se de um emprego num banco para escrever aquele que para muitos é o grande poema do século XX.
Um marco incontornável na história do modernismo, esta é uma obra fragmentada, cuja estrutura apenas sugere vagamente uma hipótese de sucessão, de lógica de continuidade. Até em termos formais, o livro é em si uma metáfora pungente da impossibilidade de ordem, de continuidade, de harmonia estrutural. É talvez uma celebração decadente dessa impossibilidade que se diz reger a razão e o propósito humanos.
A leitura do poema sugere a própria evolução da civilização ocidental, iniciada como um sonho de razão e clarividência nas civilizações clássicas, desmoronada por um período de trevas, renascida no sonho humanista e novamente feita em cinzas.
Das palavras de Eliot emana uma constante nota latente de melancolia, que exalta a beleza do sonho humano para logo a seguir enaltecer o lado sombrio de cada ilusão que nos atrevemos a erguer. A nossa história interior e a nossa história comum, em forma de poesia, com os tons de beleza e de horror com que devem ser cantadas.

2 – Chéri – Colette

Colette foi, enquanto escritora e enquanto mulher, apanhada no grande turbilhão do século XX. Iniciada na vida artística, libertina e intelectual de Paris pelo seu marido, de quem se viria a divorciar, perdeu igualmente os direitos económicos das suas obras.
Num mundo ainda largamente dominado por homens, participou em musicais baseados nos seus próprios escritos e foi jornalista durante a primeira guerra mundial, reivindicando sempre para si a procura de sucesso e de felicidade pessoal que sempre lhe anunciaram como interditas.
A sua escrita traduz um desejo incontrolável de emancipação romântica e sexual e uma fúria de libertação.
História de amor entre um homem e uma mulher mais velha, “Chéri” leva-nos numa viagem que derruba preconceitos, barreiras e muros que separam duas épocas distintas, no anúncio de uma nova era.
Hino à libertação sexual e à emancipação das emoções, aprendemos com Colette que o sexo é também a antecâmara do amor, sem o qual é impossível a felicidade. O livro de uma época, embora com a espuma eterna de um clássico, que nos ajuda a desvendar a fúria dos loucos anos.

1 – Este lado do paraíso – F. Scott Fitzgerald

É absolutamente invulgar depararmo-nos com uma lista das grandes obras literárias da década de 1920 sem mencionar Scott Fitzgerald, porque em certo sentido, a sua vida e obra são a medida desses anos.
Embora muitas vezes considerada uma obra menor no conjunto dos seus livros, “Este lado do paraíso” representa de forma perfeita a relação entre a escrita de Fitzgerald e o seu tempo.
Retrato exímio de uma geração e de uma era concretas, o livro define o advento de uma nova forma de amar e de viver.
É um produto da frenética época do Jazz, de um tempo incerto, de paixões velozes e tão efémeras quanto dramáticas. Nas páginas de Fitzgerald assistimos ao fim de um determinado sistema de valores e de uma estrutura moral que se desagrega com a vertigem da história.
A luta impossível entre o amor e a barreira do seu tempo, numa síntese perfeita entre o carácter clássico da literatura de excelência e o registo poético de uma era que condensa em si todo o desejo de beleza e de felicidade, pela pena do maior dos seus cronistas.

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