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5 cidades de sonho da América do Sul e um livro sobre cada uma delas

Quem nunca sonhou em visitar uma, ou mesmo todas estas cidades da América do Sul? Através destes livros pode conhecer um pouco mais da sua história, das suas personagens e da sua vida diária. Quem sabe se a leitura de algum destes livros não lhe servirá de inspiração para aquela viagem que sempre sonhou fazer.

5 – Montevideu – Uruguai – “A Borra do Café”, de Mario Benedetti

Plantada na margem do Rio da Prata, Montevideu é uma cidade empreendedora, viva e frequentemente citada por possuir o melhor nível de qualidade de vida de toda a América do Sul. Com um porto tão belo quanto pujante, é uma referência financeira e industrial do seu país e de todo o continente. Altiva, orgulhosa, a cidade é um pólo incontornável na produção cultural, do cinema ao teatro, da música à literatura. A sensação geral que temos em relação às grandes cidades e mesmo a cada um dos países da América do Sul, se descontarmos o habitual paternalismo e a redutora condescendência com que olhamos as suas dores de crescimento, é a de que cada um destes destinos se encontra por cumprir, mas que o continente se encontra numa eterna infância, onde todos os sonhos são ainda possíveis. O mesmo acontece com este livro de Mario Benedetti, sobre um rapaz que cresce, por entre as suas angústias e fantasias, nas ruas de Montevideu. E não é fácil imaginarmos que essa infância, aqui magistralmente retratada, pode muito bem ser a de uma própria cidade, a de um país, a de um continente, que vai com certeza encontrar o caminho da sua própria felicidade.

4 – Bogotá – Colômbia – “A Forma das Ruínas”, de Juan Gabriel Vázquez

Orgulhosa capital financeira da Colômbia e a jóia urbana da cordilheira dos Andes, Bogotá é uma súmula do esplendor étnico, cultural e histórico da América do Sul. Não adianta citar livros, nesta nossa lista, que fujam à identidade histórica e à personalidade de cada cidade ou país aqui referidos, na tentativa de vender um produto asséptico turístico, que nada diz sobre o destino que citamos. Uma viagem, até mesmo uma viagem literária, se for genuína, é feita do mesmo material da vida: tem frio, medo, zonas de sombra e desconforto, para além de toda a fruição. Parece que Cartier-Bresson, instado a explicar um dia o seu amor pelo México, por exemplo, disse que esse amor tinha algo a ver com o facto de esse país ser ao mesmo tempo tão violento e tão apaixonado. Assim é a Colômbia, de certa forma: ruidosa, toda em vibração, generosa, apaixonada, mas com um ADN histórico ligado à violência. Neste livro, Juan Gabriel Vásquez reflecte precisamente sobre a identidade histórica da Colômbia contemporânea, da escala mais pessoal e familiar à escala global da sociedade Colombiana, propondo no seu estilo elegante, genuíno, vivo, um exercício histórico de especulação que toma como ponto de partida dois conhecidos assassinatos que ocorreram em Bogotá. E deixa-nos dessa forma uma carta de amor à sua cidade, ao seu país, e a um futuro onde todas as possibilidades e todos os sonhos permanecem intactos.

3 – Santiago – Chile – “Noturno Chileno”, de Roberto Bolaño

Verdadeiro clássico contemporâneo, Roberto Bolanõ foi um gigante literário sob a forma de um meteorito. Escreveu num tempo rápido, curto e furioso um verdadeiro legado literário tão compadecido com a humanidade, tão íntimo com as diversas paisagens que captou, que a sua obra será seguramente celebrada de forma perene pelos homens e mulheres que reconheçam à palavra escrita a força central de homenagem ao espírito humano. Nesta obra, o foco de Bolaño centra-se na sua cidade natal, com a vantagem emocional que esse facto possa oferecer aos leitores, que estejam receptivos a percepcionar essa forma íntima de homenagem. Verdadeira obra de arte noir, e um objecto estético depurado, “Noturno Chileno” é um livro misterioso mas de cadência doce, hipnótica, que celebra a vertente delirante, na sua faceta obscura, dos homens e mulheres de Santiago do Chile, numa cidade que procura convocar a sua força, o seu orgulho, para sair do seu passado e do preço dos seus erros para se projectar na sua própria glória e promessa. Uma viagem literária profunda a uma das jóias urbanas e humanas do Chile e de toda a América do Sul.

2 – Buenos Aires – Argentina – “Os sete loucos”, de Roberto Arlt

Cidade com autonomia política dentro do território da Argentina, Buenos Aires desde cedo revelou o seu carácter demasiado independente, uma força motriz pródiga e selvagem, uma manifestação da aspiração humana à liberdade e à felicidade. Melancólica, mas efusiva, foi sempre uma força cultural de criação, de celebração artística. Buenos Aires criou e inspirou alguns dos maiores músicos, escritores, jornalistas e poetas universais. Intempestiva, temperamental, apaixonada, a cidade do Tango foi o tema central de inúmeros escritores. Robert Arlt, histórico colunista do “El Mundo”, testemunha sagaz de um século e de uma cidade, e em última análise do imenso e complexo painel da humanidade, foi fonte de inspiração de escritores como Roberto Bolaño, Juan Carlos Onetti ou Ricardo Piglia. “Os Sete Loucos”, delírio literário vibrante, excessivo, generoso, traz-nos uma farsa política, sociológica e psicológica verdadeiramente profética, visionária, para além de constituir um vivo retrato de Buenos Aires no início do século XX, e das suas ruas estreitas e sinuosas, como metáforas da força criadora da infinita aventura humana.

1 – São Paulo – Brasil – “As meninas”, de Lygia Fagundes Telles

Orgulhosa metrópole do Brasil, São Paulo é o principal centro demográfico, financeiro, cultural e empresarial de toda a América do Sul. Cidade de gigantesco potencial demográfico, faz da sua multiculturalidade uma marca da sua identidade. É profundamente rico e diversificado o conjunto étnico que compõe o seu mosaico humano. São Paulo é uma cidade vibrante, prolífica. Um marco vivo e animadamente celebrado da civilização. Um equilíbrio perfeito entre tradição histórica e futuro. Escritora pós-modernista e uma das maiores referências literárias do Brasil, Lygia Fagundes Telles criou com “As meninas” um romance que cristaliza com enorme sentido estético e emocional um retrato do Brasil, e em última escala de São Paulo, no final da década de 60 e em plena ditadura política. Íntimo, e profundamente humano, “As meninas” compõem um retrato vivo das aspirações humanas perante uma cidade, um país e uma época que travavam um intenso confronto com a realidade.

Todas as obras aqui referidas estão traduzidas e disponíveis em Portugal.

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