O Pulitzer: a mensagem “política” dos prémios literários

No passado dia 15 de Abril foram anunciados os vencedores da edição de 2019 dos Prémios Pulitzer. Focamo-nos, pelo nosso interesse directo na literatura, coração do projecto da Lua Eléctrica, no vencedor para a categoria de ficção. Richard Powers, com o livro “The Overstory” foi o eleito, pela sua “narrativa engenhosamente estruturada, que se expande e nos envolve como as árvores no centro da sua história, cujo deslumbramento e conexão reflecte o dos humanos aqui retratados”. Um livro com uma mensagem, antes de mais, profundamente ecológica, que nos deixa a reflectir sobre o nosso progressivo afastamento da natureza.

 Olhemos igualmente para os vencedores das últimas edições, na categoria de ficção. Em 2018, o vencedor foi Andrew Sean Greer , com “Less”, que retrata o percurso de um escritor gay numa viagem literária. O livro retrata um modo de vida gay e a passagem do tempo, num tom de humor. Em 2017, o prémio coube a Colson Whitehead , com “The underground railroad”, traduzido e publicado em Portugal pela Alfaguara.  Uma história sobre a escravatura nos Estados Unidos. A história recente em confronto com o presente. O racismo. Em 2016 a distinção recaiu em Viet Thanh Nguyen , com “The simpathizer”, traduzido e publicado em Portugal pela Elsinore. As cicatrizes da história recente, guerras “patrióticas”. A questão da emigração.  O que une todas estas histórias? Todas elas se debruçam em torno de temas fracturantes, no centro dos debates mais decisivos e actuais da civilização ocidental. Tal não é, com certeza, uma coincidência. Qualquer Prémio tem uma agenda: vamos classificá-la de “política”?

  A administradora dos Prémios Pulitzer que anunciou na passada segunda-feira os vencedores, não se coibiu de relacionar os prémios com o tempo próprio a que pertencemos. As escolhas, disse, tiveram em conta a tensão política do momento, sublinhando o mérito de trabalhos de investigação em torno da situação fiscal e dos escândalos políticos e privados da administração Trump, bem como os recentes episódios de tiroteio em massa, que recuperam para o debate a questão do acesso às armas. Outros trabalhos em torno do assédio sexual e do genocídio da população Rohingya foram distinguidos. Não é de resto a primeira vez que os resultados dos Prémios Pulitzer incomodam o núcleo de Donald Trump. Em 2016, o Washington Post e o The New York Times foram distinguidos por um trabalho de investigação sobre a ingerência russa nas últimas presidenciais americanas. Perante o protesto do Presidente, via Twitter, o seu filho, Donald Trump Jr. achou por bem, via Twitter, vir em defesa do pai, afirmando que os trabalhos só deveriam ser distinguidos caso o Pulitzer entregasse prémios a obras de ficção. O que aliás acontece, como sabemos.

  Há com certeza um perigo evidente para a credibilidade dos maiores prémios culturais, que pode retirar força às causas subjacentes a cada atribuição, que é a noção algo resiliente de que os mesmos servem uma agenda politicamente comprometida, porventura mais  liberal, urbana, elitista. Num artigo para o Financial Times, Jonathan Derbyshire, que integrou o júri do Man Booker Prize, refere esta questão, não deixando de lado a hipótese do “mau perdedor”, ou seja, a possibilidade de que esta noção é muitas vezes alimentada por lobbies, sejam eles políticos, editoriais, financeiros ou mesmo pessoais, que ano após ano apostam em trabalhos que acabam por não vencer. Os vencedores prestigiam e valorizam a ideia dos prémios, os perdedores vão sucessivamente relativizando a sua importância.

  Se não nos quisermos ater exclusivamente à área da ficção ou do próprio jornalismo, facilmente veremos que qualquer prémio ou categoria traduz uma agenda, uma causa, uma preocupação, um sonho colectivo. Num artigo escrito para o The New Yorker, Amanda Petrusich discorria em Abril de 2018 sobre o Pulitzer de música entregue a Kendrick Lamar. A autora do artigo começa por aproveitar para dinamitar a ideia de elitismo associada aos prémios, ao fazer notar que pela primeira vez o mesmo não recaiu sobre uma obra clássica ou de jazz, mas sim sobre um músico de origens populares que escreve sobre formas sistémicas e enraizadas de injustiça social. Um prémio tem sempre um impacto maior, convoca uma consciência, promove uma reflexão. Ultrapassa muitas vezes o próprio vencedor e a própria categoria. Premeia uma ideia, um conceito, um valor.  Uma estética. Veja-se a atribuição do prémio Nobel de Literatura a Bob Dylan, também referida nesse artigo.

 De resto, a própria recusa de um prémio encerra uma ideia, uma posição. Num artigo delicioso para o The Paris Review, Ursula K. Le Guin analisou as recusas do Prémio Nobel da Literatura ao longo do tempo. Jean-Paul Sartre sabia que a recusa do Prémio Nobel daria força às suas ideias, para lá de uma ideia pessoal, para lá de uma projecção do ego. Sartre sabia que existe uma indústria sedenta de transformar um nome, uma pessoa, num produto em si. E isso pode muito bem traduzir-se numa completa esterilização do núcleo da sua escrita: a mensagem, a ideia.

 Um prémio como o Pulitzer vai além da política como a conhecemos, para além da pequena política, certamente. Traduz a urgência de certas lutas e a premência de novas etapas a nível civilizacional. Resumir os prémios como questões “políticas”, tendo como referência o debate político actual, é profundamente redutor e talvez seja até do agrado de muitos interesses instalados.

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