Janet Rae Mondlane: uma americana na FRELIMO

Falar sobre o legado de Janet Rae Mondlane é narrar a história de uma jovem americana nascida no início dos anos 30, no estado do Illinois, no seio de uma típica família de classe média baixa (oriunda pelo lado materno de emigrantes suecos) que se esforçou por sobreviver no panorama de recuperação económica dos EUA, após a grande crise de 1929.

Educada no “sonho americano”, com fortes bases morais e religiosas de cunho metodista, esta mulher acabaria a desposar o malogrado primeiro Presidente da FRELIMO, Eduardo Mondlane, conquistando, graças a um temperamento forte e persistente, o seu lugar, por motu próprio, na História de Moçambique.

Na década de 50, numa América em plena efervescência na luta pelos direitos civis, Janet, uma jovem branca, apaixonava-se por um jovem negro moçambicano que conheceu num acampamento de verão para jovens promovido pela Igreja Metodista, onde ele se encontrava a convite da organização enquanto palestrante sobre África.

Mondlane encontrava-se a estudar nos Estados Unidos com o apoio das igrejas protestantes e ao abrigo de uma bolsa de estudos concedida pelo Fundo Phelps-Stokes, onde viria a terminar a sua carreira académica, que culminaria com o Doutoramento em Sociologia pela Universidade de Northwestern. Posteriormente, seria convidado a trabalhar com a Organização das Nações Unidas até ao momento em que optou por dar aulas por um breve período de tempo na Universidade de Syracusa, já com o objetivo de se mudar definitivamente, em 1963, com a família para Dar-es-Salaam, na Tanzânia, a fim de dirigir a FRELIMO, e onde viria a perecer.

Janet, por esta relação, afrontou declaradamente a família e a sociedade, devotando-se ao homem e às causas do seu povo. E apesar de também ela se ter licenciado em Sociologia e frequentado o mestrado em Estudos Africanos, acabou por desistir da sua carreira académica e profissional para acompanhar e assessorar o marido na luta pela libertação de Moçambique, adotando como seu o desígnio nacional de um povo que ainda não se reconhecia enquanto tal, mas que já tentava pôr fim ao regime colonial que o subjugava.

O racismo patente em toda a estrutura colonial e as condições em que viviam os negros moçambicanos impressionaram-na, desde logo, na sua primeira visita ao território em 1961, ainda na condição de cidadã americana e mulher de um observador das Nações Unidas. O testemunho em primeira mão da realidade da colónia portuguesa, a acrescer à presença constante da PIDE que lhe “seguiu” atentamente os passos durante toda a viagem, só veio confirmar a sua adesão à cultura africana e aos valores de liberdade e independência, constituindo, desde logo, o motivo para servir simultaneamente de esteio e de incentivo maior ao projeto do marido. Tornou-se na sua maior defensora, defendendo sempre que o ideal de um Moçambique livre estava em primeiro plano na vida do casal. Com a morte do marido, vítima de um livro armadilhado preparado pela PIDE (que pretendia, assim, ferir de morte a Frente de Libertação), e confrontada com a possibilidade de poder retornar aos Estados Unidos, optou por seguir o sonho da FRELIMO, continuando junto da resistência a trabalhar para a libertação da então colónia portuguesa.

De 1962 a 1975, a FRELIMO cresceu na luta, organizou-se no espaço que ia sendo paulatinamente libertado em Moçambique e foi-se estabelecendo como nova entidade ocupante de pleno direito governativo, respondendo, graças à obra do Instituto Moçambicano e do apoio internacional, às necessidades de uma população refugiada em dois territórios distintos: no país vizinho, a Tanzânia; e em Moçambique, onde a sobrevivência estava dependente da possível estabilidade conseguida num cenário de guerra de guerrilha.

Janet Mondlane não ficou alheia ao devir histórico e tanto quanto pelo casamento, conquistou o seu direito à moçambicanidade pela obra que realizou na construção do ideal nacional deste país.

Mentora, ideóloga e executora do Instituto Moçambicano, foi esta americana, na sua qualidade de presidente e responsável internacional da organização, a angariar e gerir os fundos para todas as escolas, hospital e demais obras sociais da FRELIMO, durante a luta da libertação moçambicana.

Graças à sua condição de cidadã americana conseguiu prosseguir o seu trabalho sem ser pessoalmente incomodada por Portugal que, apesar de lhe reconhecer o esforço, especialmente aquele propagandístico e de captação de fundos internacionais, pouco mais podia fazer perante a comunidade internacional do que tentar desacreditá-la, tal como fazia constantemente em relação à própria FRELIMO.

Contudo, apesar de todos os revezes, o Instituto conseguiu sensibilizar e criar canais de cooperação, bem como captar fundos internacionais, destinados a questões humanitárias que a Frente de Libertação, pelo seu carácter bélico, nunca poderia ter auferido, já que a esmagadora maioria dos países e organizações doadoras com as quais colaborou não  podiam, nem queriam, comprometer-se com o conflito militar que se desenrolava em território moçambicano, apesar de disponibilizarem a sua ajuda para mitigar o sofrimento das respetivas vítimas. Assim, era ela que, na maioria dos casos, e especialmente até 1969, se desdobrava pessoalmente em contactos e campanhas de simpatia que visavam acreditar a causa moçambicana no estrangeiro, especialmente na Europa do Norte e na América do Norte. Aproveitou, então, a imagem oficial do Instituto Moçambicano para, não só falar da luta de libertação, mas sobretudo para criar redes de apoio que permitiram a aceitação internacional da FRELIMO enquanto legítima representante dos interesses dos moçambicanos e de Moçambique independente.

De facto, aquando do assassinato do seu marido, Eduardo Mondlane, a 3 de fevereiro de 1969, Janet encontrava-se na Suíça em plena angariação de fundos e campanha de sensibilização para a causa moçambicana.

Contra todas as expectativas, foi esta mulher quem gizou e dirigiu um plano maior onde não só cabia uma escola internato independente, como dava os passos necessários para criar toda uma rede de escolas de ensino primário, com acesso ao secundário, formação de adultos e uma rede de cuidados de saúde, quer na Tanzânia, quer mesmo em Moçambique, permitindo, assim, a sobrevivência e gestão de milhares de pessoas espalhadas pelos territórios tanzaniano e moçambicano, numa ordem de grandeza que chegou a responsabilizar-se, em 1974, nas vésperas do seu encerramento, por um milhão e duzentas mil pessoas, só nas áreas moçambicanas controladas pelo movimento. Dava-se, assim, forma à obra do Instituto Moçambicano que, no espaço de poucos anos e com tantas dificuldades quanto as provocadas por um conflito militar de grandes proporções, era obrigado a dar resposta a quase toda a gestão diária dos campos de acolhimento sob a responsabilidade da Frente, bem como das zonas libertadas.

A luta de libertação de Moçambique teria seguramente uma história bem diferente e incomensuravelmente mais sofrida caso não tivesse tido oportunidade de contar com o génio e capacidade de trabalho desta mulher americana, branca, loura e de olhos azuis, que soube dentro da sua inexperiência colocar em pé uma estrutura assistencial inédita para o tempo e circunstâncias, fazendo escola e permitindo criar as raízes que posteriormente iriam sustentar o país independente.

Apesar do seu trabalho ao nível da cooperação internacional ter continuado especialmente nos primeiros anos de Moçambique, enquanto país independente, e ainda que lhe tenha sido concedido um Doutoramento Honoris Causa pela Universidade Eduardo Mondlane, pelos serviços maiores prestados ao agora também seu país, o facto é que inexplicavelmente a história de Janet Mondlane continua, actualmente, a ser pouco ou nada reconhecida pelo moçambicano comum, que não lhe atribui um peso significativo enquanto figura maior da História nacional. De facto, Moçambique parece tê-la, injustificadamente, condenado a uma “prateleira” histórica de onde só sai, de tempos a tempos, ao “sabor” das necessidades políticas do momento.

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