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10 Livros de viagens que nos fazem sonhar

Quando os ler vai querer visitar estes destinos. Ideias literárias para a viagem da sua vida. Livros que nos falam sobre viajar, não sobre fazer turismo.

Ler é viajar. Livros clássicos de viagens que também são clássicos da literatura. Relatos de viagens em todas as coordenadas do mundo. Páginas que nos fazem sonhar e que podem inspirar novas aventuras.

10 – Alasca – O Lado selvagem – Jon Krakauer

Há em todas as viagens uma procura de sentido, de verdade, de voz interior. Este livro é, no entanto, portador de um sentido moral mais estranho, o de que a natureza não se compadece com esse mesmo romantismo. Nele, um jovem de classe média alta, provavelmente inspirado por esse tipo de literatura, decide desaparecer sozinho no Alasca, abandonando uma existência material de conforto e tédio. A sua morte, aqui abordada, faz deste livro um objecto estranho e fascinante, em parte literatura de viagem, em parte thriller, que nos traz o melhor do backgound literário mas sobretudo jornalístico de Krakauer e que não deixará indiferente nenhum leitor. Não é um livro de viagens óbvio, efabulado, mas fala-nos de uma forma extrema sobre o risco máximo e o sentido de abandono que uma viagem implica, e o Alasca está lá, impiedoso, ancestral.

9 – China – China em dez palavras – Yu Hua

Um bom livro de viagem não é necessariamente um guia estético e asséptico das virtudes de um destino específico, e são raros os exemplos de retratos sinceros sobre o que realmente representa a China moderna que não sejam da autoria de cronistas ocidentais, por razões óbvias, que se prendem com as características do regime chinês. Nesse sentido, torna-se importante sublinhar que Yu Hua acompanhou as principais páginas da história recente da China, desde o maoísmo até aos nossos dias, tendo afirmado que qualquer dor da China é também a sua própria dor. E o que este livro nos traz é algo de verdadeiramente valioso, porque absolutamente honesto, genuíno: uma análise das incongruências e do caminho histórico e ideológico de uma nação que, enquanto procura afirmar-se como o farol económico, social e cultural do mundo, empreende ainda a maior de todas as buscas: a da sua verdadeira missão e identidade.

8 – Médio Oriente – Irão – Rússia – A Estrada para Oxiana – Robert Byron

Considerado como o melhor livro de viagens do século XX pelo The Guardian, “A Estrada para Oxiana” viria a tornar-se um modelo e uma inspiração para todos os autores do género, bem como uma referência literária em geral. Escrito nos anos 30 por Robert Byron, um diletante antigo aluno de Oxford, a veia poética que perpassa das páginas que nos deixou é indissociável do seu próprio percurso de aventura e descoberta, que culmina na sua morte trágica, em 1941, quando o navio em que seguia foi bombardeado por um barco alemão. Byron deixa-nos no seu relato de viagem pela Palestina, Síria, Iraque, Pérsia (Irão) e Afeganistão uma aura exótica cristalizada, de um próximo oriente que porventura já não existe, e que hoje talvez já só seja possível de visitar, pelo menos de forma despreocupada, enquanto ocidentais, através da magia dos livros.

7 – África – Viagem por África – Paul Theroux

Como notaram diversos críticos a esta obra, “Viagem por África” perde talvez demasiado tempo a denunciar a hipocrisia de muitas missões humanitárias em que os povos ocidentais tentam de alguma forma uma catarse de consciência e uma compensação pelos séculos de exploração e violência imperialista exercida. O “The Guardian” aponta-lhe até diversas inexactidões históricas. Mas estamos em crer que tal se perdoa a um dos maiores escritores contemporâneos de literatura de viagens, que nos decidiu deixar neste livro um retrato de caminhante, e não de turista, de uma viagem que se estendeu do Cairo à Cidade do Cabo, e que se reveste dos contornos épicos de uma aventura de um dos últimos românticos, na era da globalização. O que mais se pode pedir a quem, através da palavra escrita, nos convida a partilhar uma viagem, no papel confortável de leitores, e alarga com isso os limites dos nossos sonhos e da nossa imaginação?

6 – Europa Central – Danúbio – Claudio Magris

Numa era de aberto cepticismo em relação ao projecto europeu, Magris deixa-nos neste seu livro uma verdadeira carta de amor ao velho continente. Tomando como ponto de partida um rio que une o oriente e o ocidente europeus, percorrendo diversos países e capitais, Magris discorre sobre o destino e as relações de um território díspar, heterogéneo, mas ligado pela história e pelo amor da humanidade à arte e à beleza. O rio torna-se então numa metáfora para esse património imaterial que nos une e lança-nos num novo nível de conhecimento de um continente que achamos conhecer, mas cuja percepção e entendimento nos escapará sempre. Como as águas vivas desse rio. Um hino à herança cultural europeia, à beleza e ao eterno prazer de viajar.

5 – Reino Unido – Crónicas de uma pequena ilha – Bill Bryson

Bill Bryson é um expoente perfeito da grande tradição anglo-saxónica de comunicadores e divulgadores culturais. Um livro seu nunca é apenas um ensaio sobre o tema central. Vai tergiversando, numa cadência de entusiasmo, doce, errático, como um diálogo que mantemos com alguém de quem gostamos, após um almoço de amigos. Os seus livros estão cheios de episódios, referências culturais, são páginas de história, de património, conhecimento, mas sobretudo de aventura, de vida. Este relato sobre o Reino Unido é um legado de amor deste escritor americano a essa mesma ilha, onde viveu os últimos vinte anos da sua vida, e foi escrito no preciso momento em que se despedia, de regresso aos Estados Unidos. Divertido, nostálgico, crítico, é considerado um dos mais ricos relatos de viagem sobre o Reino Unido e é seguramente uma boa introdução a este território geográfico, histórico e humano.

4 – Turquia – Istambul – Orhan Pamuk

Escrito numa altura particularmente difícil da sua vida, “Istambul” é a grande homenagem de Orhan Pamuk à cidade da sua vida. Neste seu livro encontramos o despertar contemporâneo de uma cidade única, que condensa o encanto, o ensejo utópico e a força vital de sucessivos impérios, civilizações e eras. Nunca noutro sítio se sentiu, de forma mais poderosa no sentido construtivo, fecundo, o embate e a encruzilhada entre o mundo ocidental e oriental, entre passado, presente e futuro. Pamuk condensa essa glória indefinível, caótica, mas bela, num livro vibrante, doce, generoso em episódios e referências literárias, históricas e emocionais. Uma viagem interior em forma de livro. Literatura de viagens na sua forma mais bela e poderosa. Páginas de melancolia e esperança. Uma carta de amor a uma cidade.

3 – Patagónia – Na Patagónia – Bruce Chatwin

Fundadas na área vital onde os territórios da ficção e da não ficção se cruzam, as páginas escritas por Chatwin têm o condão de nos fazer sonhar e avançar até nos perdermos a nós próprios nos seus livros e nas suas viagens. Relato mítico da sua viagem à Patagónia, território que une Argentina e Chile, até aos limites da Terra do Fogo, e cenário remoto, aberto à imaginação, inóspito. Cruzando relatos verdadeiros de fugas de bandidos lendários, referências históricas e episódios de amor trágicos, na escrita de Chatwin a paisagem funde-se com o sentido dramático da aventura humana. Elegante, poético, nostálgico, este livro é um clássico da literatura de viagens. A mitologia de uma paisagem nua onde um mestre da escrita convoca elementos naturais, aqui pródigos e em delírio telúrico, para a sua doce união com a  narrativa humana.

2 – Baía / Brasil – Dona Flor e os seus dois maridos – Jorge Amado

Um verdadeiro livro de viagens raramente se apresenta sob a forma de um mero guia turístico. Tal como neste romance de luzes e sombras, entre o mundo dos vivos, e o dos mortos, que se cruzam em harmonia e celebração e onde se esbatem as diferenças entre o racional e o irracional, o tangível e o invisível, que é também um maravilhoso roteiro para o Brasil, para a Baía, e para esse património sentimental e humano verdadeiramente único. Se o Brasil tem um jeito próprio, um sentir, uma identidade emocional, esses elementos estão neste livro maravilhoso, celebrativo, do mestre Jorge Amado. Doce, sentimental, efusivo, mágico, esta obra é uma carta de amor a um país e a um povo. O grande carnaval das nossas vidas, num livro que pode muito bem ser uma viagem. Um clássico da literatura em esplendor.

1 – Estados Unidos da América – Pela estrada fora – Jack Kerouac

Talvez o mais celebrado e famoso relato de viagem de sempre, “Pela Estrada Fora” é um exemplo máximo do cruzamento perfeito entre literatura, poesia e livro de viagens. É o hino apoteótico da Beat Generation e a Bíblia de muitos viajantes. Narrativa de uma road trip entre as duas costas dos Estados Unidos da América, este livro é também a narrativa de uma procura interior pela beleza, pela verdade e pelo sentido da vida. Nele se funde uma paisagem de horizontes e possibilidades em aberto, num ritmo marcado pela liberdade e pelo improviso. Melancólica, bela, evocativa e profundamente poética, esta obra de Kerouac continuará a alimentar o imaginário de gerações e a revestir de literatura e beleza os seus ensejos de liberdade e a sua procura de felicidade.

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